Verdade ou imaginação

Relendo alguns artigos sobre lendas urbanas, lembrei-me de momentos assustadores que vivemos na escola primária.<br><br>Antigamente, aprendíamos as primeiras letras na escola que se denominava "escola primária". Hoje, é o primeiro ciclo do ensino fundamental. Este período de minha vida estudei no Círculo Operário, hoje Colégio João XXIII, na Rua José Zappi, na Vila Prudente, na cidade de São Paulo. <br><br>O complexo era composto pelo local onde ficavam as salas de aula e também tinha outro prédio, onde funcionava a administração da escola e diversas outras salas, como o anfiteatro, onde tinhamos aulas de música e ensaiávamos apresentações, além dos consultórios médico e odontológico.<br><br>Bem ao fundo deste complexo, tinha o convento das freiras que atuavam na escola e na paróquia local, as irmãs franciscanas de São José, que aceitaram o convite para trabalhar na paróquia e nas obras sociais do Círculo Operário.<br><br>Certa vez, rumores de que o prédio da administração estava assombrado, botavam medo na criançada, até mesmo nos mais crescidos. Ninguém tinha coragem de passar sozinho pelos corredores e nem se atrevia a ficar lá depois das 18h, pois, segundo diziam, um vulto feminino vagava por lá.<br><br>Alguns diziam que era mesmo um vulto igual ao da Santa, cuja estátua ficava bem ao lado do anfiteatro, perto da secretaria, outros, que era uma mulher de branco, com véu. Era um medo geral. As mais incríveis histórias ouvíamos durante o recreio, ou na entrada e saída das aulas.<br><br>Tínhamos, obrigatoriamente, que passar pela avaliação do dentista e do médico, periodicamente e, quando preciso, passar pelos cuidados dos mesmos. O atendimento era marcado no período escolar, tanto de manhã quanto de tarde. A secretaria fechava às 18h, mas, quando o atendimento demorava um pouco mais, os médicos ficavam com os pacientes que, após terminarem, tinham que passar pelos corredores vazios e escuros, até chegarem à porta de saída. <br><br>Sempre ouvíamos as horripilantes histórias de quem ficava até mais tarde em atendimento e depois encontrava a fantasmagórica figura, saia correndo e gritando de medo, até a rua.<br><br>Certa ocasião, foi minha vez de ser atendida pelo dentista, justamente às 17h30min. Odiei isso, mas não pude recusar e tive de ir. O dentista demorou muito e só terminou o atendimento por volta das 18h30min. <br><br>Agradeci, meio a contra gosto, e fui em direção à saída. Eu sabia que teria de passar pelo longo corredor até a porta, abri-la e, depois, bater para fechá-la.<br><br>Ao passar pelo corredor meio escuro, à meia luz, vi um vulto entrando em uma das salas. Vi que era a saleta de orações das freiras. Minha vontade era sair correndo, sem olhar para trás, mas, nunca fui covarde e, mesmo com meus 10 anos de idade, enfrentei meu próprio medo e segui, calmamente, pelo corredor. O vulto passou novamente e foi para a sala em frente, voltou e entrou novamente na saleta de orações. Pareceu-me ser uma freira… Respirei fundo e fui em direção à saleta, talvez movida pela curiosidade e sem deixar de sentir medo, espiei pela porta entreaberta…<br><br>Lá estava ela… Um vulto diáfano, em posição respeitosa, mãos postas em oração, flutuando em frente ao pequeno altar… Ela olhou para mim e fez um sinal de silêncio, com o indicador sobre seus lábios angelicais.<br><br>Mesmo em êxtase, respeitei e saí, deixando a porta entreaberta como encontrei. O medo passou na hora e fui embora, emocionada. Não sabia se o que tinha visto era real ou foi imaginação. Só sei que vi… <br><br>Não contei para ninguém, pois sei que não acreditariam. Mais tarde, contei para minha mãe e para minha avó. Algum tempo depois, contei para o padre, em confissão… E ele me deu uma penitência de cem "Pai Nosso" e cem"Ave Maria", que eu deveria fazer ajoelhada, lá na igreja de Santo Emídio. Creio que ele não acreditou em mim. E ainda fiquei com bolhas nos joelhos, isso sim.<br><br>Hoje, depois de tantos anos estudando o espiritismo, posso compreender a visão que tive em minha infância. Tive muitas outras, mas, isto são histórias para outras ocasiões. Muita paz!<br><br><br><br>E-mail: [email protected]<br>