Índios de São Paulo III

Pico do Jaraguá – Vila Clarice, ao lado de um pequeno córrego poluído e cheio de detritos de esgoto. Foi aqui que, em 1997, encontramos a Aldeia Jaraguá, com aproximadamente 30 índios, entre crianças e adultos, comandados pela Cacique Jandira. Ela nos contou que seu marido, então Cacique, havia morrido e ela precisou assumir a direção da Aldeia porque seu filho ainda não estava preparado para a função. Assim que estivesse pronto ele seria o Cacique.
A Aldeia ficava em uma pequena mata, muito próxima, vizinha mesmo de todo o movimento da região. Era constituída por barracos de madeira e quando chovia havia muita lama. Ela nos levou para conhecer o local e mostrou-nos, junto ao córrego, que ainda havia correntes de ferro presas em estacas, onde antigamente eram castigados escravos. Disse também que aquele córrego antes era um grande rio, tinha tido muito ouro. Na pequena mata havia poucas árvores e muito mato e algumas bananeiras.
Um pouco afastada das casas vimos alguns índios construindo uma grande oca com troncos de árvores e cobertura de sapé, e eram liderados por um índio de aproximadamente 50 anos. Jandira então nos apresentou e contou que ele e mais alguns índios que ali estavam eram da Aldeia de Parelheiros que tinham vindo ensiná-los e ajudá-los a construir a Casa da Oração. Contou até então a Aldeia não tinha esta Casa porque ali não havia nenhum Pagé, mas que agora eles haviam identificado um índio que tinha as condições necessárias para ser Pagé. Ele havia sido enviado a Parelheiros e lá estava sendo iniciado e ensinado nos segredos desta importante função.
Voltando ao centro da Aldeia, sentamo-nos em baixo de algumas árvores, em bancos de madeira feitos por eles e, enquanto as crianças se distraíam com livros de histórias infantis que havíamos levado, passamos a conversar com Jandira, seu filho e alguns outros adultos.
É interessante falar sobre a literatura infantil para essas crianças. Tínhamos, na CENP, livros com histórias de índios. Contudo ficamos muito em dúvida se os levaríamos porque eram histórias de índios inventadas pelos brancos e poderiam não corresponder à sua real cultura. Optamos por levar livros que contivessem mais figuras do que escrita e narrações onde aparecessem a natureza e os animais. Na verdade, a escrita da literatura infantil e adulta indígena se constitui em um grande trabalho à parte. Temos conhecimento e já tivemos em mãos trabalhos belíssimos feitos em Aldeias por esse Brasil afora, como um verdadeiro resgate destes povos. Não sei porque eles não são editados e nossas crianças e jovens nas escolas continuam a tomar conhecimento apenas de livros sobre índios e situações inventadas pelos brancos.
Um dado cruel é que aquelas crianças índias já haviam entrado em contato com revistas em quadrinhos cheias de Batman, Homem Aranha e outros superheróis. Vale lembrar que na Aldeia havia televisão e a grande proximidade com os brancos.
A título de informação, tenho notícias de que está em andamento um projeto de uma TV indígena. Espero que haja índios participando da elaboração do mesmo, caso contrário teremos uma TV com a visão dos brancos.
Mas voltando novamente, as crianças gostaram muito e algumas vinham pedir explicações e que lêssemos algum trecho das histórias.
Na nossa conversa com os adultos ficamos sabendo que na Aldeia havia alguns poucos índios que tinham estudado, inclusive fazendo supletivo e posteriormente Curso Técnico e trabalhavam na área da saúde, tendo até mesmo prestado concurso.
Sobre a escolaridade, as crianças freqüentavam uma Escola Estadual próxima e as dificuldades eram as mesmas já identificadas em outras Aldeias, relatadas por supervisores de ensino e delegados de ensino: discriminação e dificuldades com a língua. Consequentemente, havia grandes falhas na metodologia usada pelos professores das escolas comuns, que por sua vez também não tinham recebido nenhum preparo para lidar com o problema.
Fomos visitar a Escola freqüentada pelas crianças e novamente foram confirmadas as versões dadas pelos índios. Descobrimos que uma das causas da discriminação eram os maus hábitos de higiene, que levava outras crianças a se afastarem, bem como as professoras, que também demonstravam aversão por elas.
Vocês conseguem imaginar uma escola freqüentada por índios e que no Dia do Índio repete incessantemente o padrão de pintar a carinha dos brancos, fazer uma peninha de cartolina e colocá-la na cabeça e não aproveitar nada do que as crianças indígenas poderiam trazer como relato de sua história e sua cultura? Pois é…
Durante o trabalho da equipe na elaboração do Projeto de Capacitação de Professores índios e não-índios que desenvolvíamos, percebi que os índios estavam tendo uma participação apenas de "corpo presente", quase que só para fazer constar, enquanto todos nós os técnicos falávamos e discutíamos os assuntos em linguagem que era impossível para eles compreenderem. Abri o problema para todos na reunião e disse que passaríamos a falar mais devagar, explicar na linguagem mais simples possível os significados para eles, solicitar que opinassem, que questionassem quando não entendessem e a leitura de documentos seria feita em pequenas porções e simultaneamente explicada a eles, caso contrário seria impossível a verdadeira participação do grupo indígena. Eles ficaram muito contentes e todos consideraram que era isso mesmo que precisava ser feito.
Para tomar as decisões finais de determinado problema pedíamos o voto deles e então surgiu algo muito interessante. Eles disseram que não podiam votar nada que a Aldeia não tivesse conhecimento e desse sua aprovação. Assim, a cada vez que surgia a necessidade a reunião ficava adiada, eles levavam o problema para suas Aldeias e retornavam, na reunião seguinte, com a votação de sua comunidade. Vocês podem imaginar que beleza de trabalho foi feito? Uma das Aldeias mais atuantes era a de Parelheiros. Não faltavam às reuniões, traziam sempre seus principais representantes e tinham sempre uma opinião a dar para a realização do projeto.
Um dia, quando cheguei na CENP-SE, várias colegas me disseram: hoje o pau vai comer. Os teus índios estão todos pintados! Acho que vai ter guerra.
Quando chegamos à sala de reuniões, realmente eles estavam todos pintados e antes do início pediram a palavra para dizer que aquela pintura era para demonstrar toda a satisfação que sentiam pelo andamento dos trabalhos e pela forma como estavam sendo tratados.
Quando deixei a CENP, em final de 1998, todo o Projeto de Capacitação, com detalhamento da metodologia, dos conteúdos, dos professores que atuariam, dos índios e não-índios que seriam capacitados, do local e dos custos, estava pronto para ser implantado. O projeto era uma beleza pelo respeito à cultura, história e saberes indígenas que seriam abordados, inclusive na matemática. Uma grande troca de experiências e saberes entre índios e não-índios que só poderia enriquecer aos professores no tratamento destas crianças e adultos que precisavam e precisam da escola para crescer e serem respeitados na plenitude de sua cidadania.
Não pude ver o desenvolvimento do Projeto, mas tive notícias de que o trabalho foi realizado com sucesso para implantação no Ensino Fundamental – 1a a 8a séries – e neste momento inicia-se o projeto para extensão ao Ensino Médio.

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