Eu vivi duas épocas de opressão. Final dos anos 1940 e grande parte dos anos 1960, 1970 e 1980.<br>Na primeira eu era pequeno, na parte que vou narrar eu tinha 6, 7 anos. Foi no pós-guerra, quando tudo era racionado, devido aos efeitos da II Guerra Mundial.<br>Já de pequeno eu e minha irmã Teresa, cinco anos mais velha que eu, estávamos na fila do pão às quatro horas da manhã, na padaria do seu Delfim na Rua João Cachoeira, próximo à Rua Joaquim Floriano. Às sete horas da manhã quando o pão estava saindo, era aquele filão escuro, um misto de farinha de trigo com a de mandioca. O açúcar era preto. Açúcar mascavo, é o que diziam. O gasogênio substituía a gasolina, com aqueles enormes cilindros atrás dos carros e ônibus.<br>Nasci na ditadura de Vargas, 1939. Dois anos depois do estado novo, a parte feroz daquela ditadura. Em 1945, veio a democratização e no ano seguinte ela foi regulamentada pela assembléia nacional constituinte.<br>Na metade dos anos 1960, novamente estávamos na ditadura. Ainda no início da década, mais precisamente em novembro de 1960, associava-me ao sindicato dos marceneiros.<br>Tempos de ideologia para salvar os trabalhadores. Tarefa difícil pelo aglomerado de Pelegos. Os chamados Giletes (corta dos dois lados).<br>Se bem que nosso sindicato era presidido na época por Salvador Rodrigues e tinha como advogado, Dr. Altivo Ovando, pai de nossa colega de site, a Márcia.<br>Cidadão reto. Imparcial responsável por lições que não esqueço até hoje: “Mario, o que o trabalhador não percebe é que é com seu trabalho que se paga seu salário”.<br>Já no início dos anos 1980, já em 1984, janeiro fui ao sindicato acertar minha mensalidade. Para não ouvir gente de camisa vermelha da CUT, e falando de burgueses exploradores, da massa operária, entrava e saía logo. Quando ia por o pé no primeiro degrau, me chamaram e me disseram que ia ter uma festa na Praça da Sé no dia 25, comemorativa ao aniversário da cidade de São Paulo. Deram-me um panfletinho dizendo: “eu quero votar para presidente”.<br>A festa foi realizada com bastante gente levando aquelas faixas que não podiam faltar: “Abaixo a ditadura, fora imperialistas e gorilas de Brasília”. Sabe, quando há muita gente aglutinada, sempre tem políticos de boca. Quando eles leram aquele panfleto, pequeno, retangular, com os dizeres “queremos votar para presidente”, veio a idéia de se fazer comícios das diretas já. E os comícios foram pipocando até chegar ao clímax, com um mundaréu de pessoas. Um festão em praça pública. Como não podia deixar de ser, o PMDB estava à frente dos eventos. E sendo assim, o dono do PMDB, Ulisses Guimarães, estava à frente.<br>E político sabe onde buscar pessoas que podem chamar o maior número de outras, para engrossar a multidão.<br>Na certa doutor Ulisses não ouvia transmissões de futebol, mas alguém lhe disse que a Rádio Nacional era a que mais se destacava no IBOPE, e Osmar Santos foi chamado para animar a “festa”. Para aumentar mais ainda a popularidade do senhor Ulisses, digo das diretas, Osmar tinha um outro programa na Rádio Excelsior, também pertencente ao conglomerado Globo. E era apresentado por Fausto Silva. Só não era apresentado quando doutor Ulisses ia ao programa. Aí era o dono que apresentava, no caso, Osmar Santos. Era uma festa de demagogia, dos dois lados. Num dos programas em que o “sócio” aparecia, Osmar deixou escapar que doutor Ulisses dormia pouco, acordava muito cedo e logo às cinco horas da manhã já estava apertando a campainha da sua casa para as a caminhadas em favor das diretas já.<br>Nos comícios estavam os seguidores de Osmar, seus irmãos Oscar e Odnei, mais Osvaldo Maciel, Jorge de Souza, Fausto Silva, Tata e Escova, todos de camisas amarelas com os dizeres “Diretas Já” em cima do palanque. Agora vai! – Diziam todos. E no dia D, o congresso ia votar se íamos ter ou não ter as diretas.<br>Já pela madrugada, veio o resultado. Vitória do Sim. Ganhamos, mas não levamos.<br>Na certa alguns deputados orientados pela corja, não compareceram, ou se abstiveram do voto, e faltaram alguns votinhos para dar a vitória em favor do sonho de se votar para presidente.<br>Franco Montoro, com ar de tristeza, dizia, a quem quisesse ouvir. A luta continua. Sim. Continuaria, com ele na tribuna do senado, falando, falando, falando, e não dizendo nada.<br>Afinal, a ditadura era uma grande teta, para se manterem na mídia lutando contra ela.<br>O mesmo que os discursos dos deputados nordestinos, em favor de se colocar água para o povo que morria de sede.<br>A ditadura ara um filão de inspiração para músicas, poesias. Percebam que depois que a ditadura acabou, também faltou a inspiração para Chico Buarque compor aquelas maravilhosas letras que nos encantavam.<br>Quando veio 1985, ele compôs Vai Passar. E passou. Passou para a posteridade.<br>Depois que a poeira baixou, veio o arrependimento de muita gente, que se sentiu logrado.<br>Osmar Santos, no programa Balance, deixou escapar sua decepção com os políticos, e não quis nem saber. Meteu a boca no trombone. É, gente, minha mágoa foi ser usado. Quando das diretas, o senhor Ulisses Guimarães estava todo dia comigo. Agora nem um telefonema dele recebo. Tudo bem, a gente vive para aprender.<br>O que foi verdade, e muita gente não gosta que se diga. É que toda aquela luta de milhões de pessoas, que foi inglória, só deu certo quando uma pessoa se meteu como intrometido na eleição pelo colégio eleitoral. Entrando de sola na convenção do PDS, em julho de 1984.<br>Foi Paulo Maluf, que cismou de bater de frente com o candidato dos milicos, Mario Davi Andreazza, derrotando-o naquela histórica convenção. <br>Enfim, o militarismo estava fora da jogada. Um civil ia ser eleito pelo colégio eleitoral dominado pelo partido do governo.<br>Só que o presidente do PDS quase quebrou a mão, quando deu um soco na mesa, dizendo: sendo assim, não sou mais, o presidente do PDS.<br>Pronto: a traição estava começando. E vocês acham que Ulisses, Montoro, Tancredo, iam ficar de fora? Deu no que deu. Houve cassação. E aquele, do soco na mesa, tomou posse com os olhos de ontem.<br><br>e-mail do autor: [email protected]