História de D. Carmelo Naccarato

Meu pai, Carmelo Naccarato, nasceu em 1894 no Sul da Itália, Província de Cosenza – Comune di Scalea. Imigrou junto com seus pais e seu irmão Giuseppe Naccarato para o Brasil em 1910, então com 16 anos. Como tinha muita habilidade na arte da alfaiataria, confeccionava as vestimentas que eram usadas no teatro e cinema em São Paulo e Rio de Janeiro. Era o figurinista mais requisitado da época. Costurava com a habilidade e rapidez que eram requisitos fundamentais para dar conta do volume de serviço em pouco tempo. Em 1920 chega ao Brasil a Escola de Artes Cinematográficas Azzurri. Meu pai conhece os diretores e junta-se a eles para a realização de filmes. Em 1928 o filme "MORFINA" com 96 min é lançado em São Paulo. A direção era de Nino Ponti e fotografia de Antonio Medeiros. Os produtores eram Carmo Naccarato, Francisco Madrigano, Nino Ponti e Antonio Medeiros. A Produtora era a U.B.A. – União Brasileira de Artistas. O elenco era formado por: Carmo Naccarato, Francisco Madrigano, Milda Rutzen e Lia Jardim. A equipe da U.B.A que realiza "MORFINA" , era um grupo de artistas ligado à Escola de Artes Cinematográficas Azzurri. O escritor Menotti del Picchia era o roteirista dos filmes. Como esta, diversas iniciativas de escolas de cinema têm curso na década de 20, constituindo-se num fenômeno particular, quase sempre sem o sucesso e a relativa seriedade da Scuola Azzurri de Arturo Carrari. Estas escolas produziam filmes de segunda categoria que irritaram a sociedade local devido às constantes denúncias de que estariam desencaminhando moças. Os movimentos sociais contra aquele tipo de exibição eram orquestrados pela poderosa "LIGA DAS SENHORAS CATÓLICAS". Não demorou para que os poucos cinemas locais ficassem proibidos de exibir os denominados "filmes ousados" em qualquer horário antes da meia-noite. Foram então criadas as "sessões exclusivamente para cavalheiros" que eram sessões destinadas exclusivamente a homens, em exibições que só teriam início após a meia-noite. Meu pai me contou com pesar que o filme "MORFINA" que atuara como produtor e ator estava incluido nesta categoria de filmes. O conteúdo do filme era de caráter informativo e servia de alerta à toda a população, pois expunha o perigo das drogas. Entretanto a alegação da censura era porque num momento do filme a atriz Milda Rutzen levanta a saia acima dos joelhos (mais ou menos quatro dedos) e com uma agulha hipodérmica aplica em sua perna uma dose de morfina. Esta era a cena "pornô" da época. Meu pai conta ainda que muitos cavalheiros permaneciam sentados no final da exibição e assistiam novamente o filme na segunda sessão para ver a cena dos joelhos quando se levantavam e deixavam o cinema. Assim o filme passou a buscar salas em que a censura era mais branda. Desta forma, foi exibido em vários cinemas do Rio de Janeiro até que a censura local também o classificaria como "filme ousado". Chegou a ser exibido inclusive nas salas de Buenos Aires. E foi nesse vai-e-vém que o filme desapareceu. Além de participar de vários outros filmes, meu pai – Carmo Naccarato – realizou diversos documentários que eram exibidos como noticiário antes do filme principal. Foi na década de 30 quando fundou a "ACTUALIDADES MOVIETONE" (foto). Dentre outros produziu um ótimo documentário filmado nas Sete Quedas. Certa vez, a ACTUALIDADES MOVIETONE foi cobrir o deslizamento de terra no Morro do Monte Serrat na cidade de Santos. Havia chovido muito no litoral e a cidade ficou submersa numa inundação sem precedentes. Meu pai e sua equipe então empreeenderam uma viagem até o local da catástrofe, viagem esta que seria feita de trem e duraria cerca de três dias para atingirem o local. Quando lá chegaram as águas já haviam baixado restando muito pouco de ação para filmar. Aí surgiu a idéia brilhante de meu pai de simular uma cena de salvamento e resgate. O menino que servia de carregador dos equipamentos de filmagem foi escolhido para deitar numa maca e ser socorrido. A título de dar maior dramaticidade na cena o resgatado vira o rosto na maca e simula uma golfada de sangue quando está sendo carregado dos escombros. Esta pode ter sido a primeira vez que se utilizou "efeitos especiais" no cinema brasileiro. Após concluído, o documentário foi apresentado na sala do cinema Santa Helena, localizado na praça da Sé em São Paulo, no Edifício Santa Helena. Quando surge a cena do menino resgatado, irrompe o silêncio no cinema com os gritos de uma apavorada mulher: "voces mataram meu filho!!! voces mataram meu filho!!!". As luzes se acenderam e a sessão foi interrompida para socorrer a pobre mãe. Tratava-se da mãe do menino carregador da Actualidades Movietone! O mais curioso é que a mulher estivera com o filho minutos antes do início da sessão.