A velha Serpente

Quando entrei para a grande agência em formação, em 1975, como relatei em "Milagres do dia-a-dia", viera com a cara e a coragem. O redator que fôra tratado para ser meu dupla "roeu a corda". Assim, fiz uma campanha sozinho, depois uma redatora estágiaria gaúcha ajudou-me numa campanha imobiliária. O prédio era todo novo, mal instalado, os carpetes davam choques.

Foi então que surgiu a grande figura. Sentou-se, pôs os pés em cima da mesa, e como quem não quer nada, desenrolou ali a campanha toda, desde a idéia inicial ao aspecto gráfico.

Tinha uma criatividade tão grande quanto sua língua afiada. Não poupava ninguém, amigos ou não, de seus comentários ferinos. Tinha uma veia aguçada para sentir os pontos fracos das pessoas, de modo a assustar quem não o conhecesse bem.

Parece que a idéia era essa mesmo; sua agressividade verbal era pura defesa, afugentava os indesejáveis, garantindo assim seu espaço para poder sonhar e planejar em paz. Um de seus apelidos era "A Velha Serpente", por sua mordacidade.

O mesmo sucedia em relação às mulheres. Numa época de liberalização sexual, ou, em muitos casos, de promiscuidade, ele se refugiara numa ilha de fidelidade e culto à sua espôsa. Assim, assustava as jovens fãs tentadoras, fazendo-lhes perguntas obscenas e proferindo palavrões. E gabava-se, num tempo de prevaricação, de continuar "invicto".

Para muitos, na época, isso poderia ser considerado uma falha de personalidade, algo em si nada lisonjeiro. Mas ele gostava realmente da "patroa", e talvez também a temesse um pouco. O que parece estranho, sendo ele tão ousado e muitas vezes arrogante.

E assim, por muitos anos, participou de algumas das maiores agências paulistas, cada vez mais rico e famoso. Viajou com a mulher pelo mundo todo. Creio que eu, conhecendo-o bem e sabendo de suas boas qualidades, e, por outro lado, tendo também a língua aguçada, não o temia.

Dávamos-nos bem, mantendo sempre a guarda. Como dois samurais, respeitando-se e mantendo o "kamae", a área de defesa.

Fizemos dupla em duas felizes ocasiões.

Mas, se ele não tinha o defeito da infidelidade, possuia outro, que o ia corroendo silenciosamente. Quando, pela primeira vez foi almoçar em meu apartamento, pediu a minha mulher:

– Você não tem uma dose da "branquinha"?

Ela ficou espantada, um senhor tão distinto e chegado a uma cachaça. Era verdade, bebia pouca quantidade, mas frequentemente; sempre algumas dose diárias.

Quando, numa de suas boas iniciativas, instituiu uma feijoada para os amigos, nas quartas feiras, o hábito de se beber pinga e cerveja acompanhou os almoços. Que variavam de lugar, conforme a qualidade da feijoada se mantinha, ou não. Mas a turma, com mais ou menos participantes, permanecia unida. E êle, com seu carisma, era o "líder da matilha".

No afã de agradá-lo, começaram a trazer cachaças raras, de Morretes, Salinas, Januária. Acabava virando um festival da cachaça. Sou de beber pouco, mas de vez em quando dava uma "bicada".

Esta farra toda acabou quando surgiu a notícia: meu amigo estava com cirrose. Transplantava ou morria. Um filho ofereceu-lhe um pedaço do fígado, e depois de 18 horas de cirurgia, o transplante fôra um sucesso. Mas essas coisas não param por aí. Além de monitoração constante, precisava de altas doses de remédios anti-rejeição.

Tudo isto fragilizara-o muito, apenas a mente alerta e a verve irônica se mantinham intactas. E não houve jeito: um vírus oportunista, raro e implacável, apanhou-o de jeito. Com uma síndrome de esclerose muscular, viveu pouco tempo mais.

O velório do Sírio Libanês estava lotado. Meio mundo da publicidade viera prestar homenagem àquela grande figura que partia. Uma era se encerrava, talvez: do publicitário criativo, anti-conformista e desbocado, que fazia uma festa de sua profissão, onde quer que estivesse. "Êle" se fôra. E "invicto".