Era bem tranquilo o movimento na Avenida Santo Amaro, pois nessa época, 1962, o número de automóveis era bem reduzido. Dava para atravessar de um lado para o outro até bailando! Lógico que eu não podia atravessar bailando, nem pensar! A minha mão tinha de estar sempre bem grudada nas mãos de minha mãe, pois eu era bem levada. Praticamente, eu tinha de acompanhá-la em quase todos os lugares: centro de puericultura, empórios, tintureiro e.. até velórios. Acho que, de fato, fui mesmo muito levada! Ou será que as minhas irmãs e o meu irmão é que eram quietinhos demais?!
Morávamos em Moema. Na época, o bairro era chamado de Jardim Novo Mundo, e quando era preciso comprar material para as reformas da nossa casa só existia, pela redondeza, a Casa São Francisco, que ficava do outro lado da Avenida Santo Amaro.
Chegávamos na loja e mamãe entregava a lista de material pedida pelo pedreiro ao Sr. Francisco, e, na maioria das vezes, tudo era anotado no caderno para que o meu pai pagasse depois. Minha mãe e o Sr. Francisco conversavam um pouco e eu… mesmo ali colada em Dona Tina, conseguia mexer aqui, ali, derrubar algum tijolo, me espetar em alguma coisa!
A vida foi correndo, e a Casa São Francisco se fortalecendo na Avenida Santo Amaro e sendo conhecida não só pelos moradores do bairro, mas pelos moradores de outros bairros também. Tendo todos os dias ali, à frente do empreendimento, o seu proprietário Francisco Braz Filho.
Há pouco tempo estive visitando o Sr. Francisco em sua casa e fui recebida carinhosamente pela doce Dona Neusa, sua esposa. Conversamos por um bom tempo e eu, sempre atenta, ouvindo e anotando as muitas histórias sobre os bairros e moradores de Moema e da Vila Olímpia que o Sr. Francisco foi contando.
Ele tem guardado em sua memória uma relíquia de fatos, nomes, datas e acontecimentos que fazem parte da vida desses bairros. Aqui transcrevo um pouco de sua história contada por ele:
"Tenho 80 anos. Nasci na Vila Olímpia. O meu pai era de origem italiana e minha mãe era neta de portugueses. Morei por um tempo na Rua Andrade Pertence e, por trinta anos, morei na Rua Cardoso de Melo, e só há pouco tempo me desfiz desta casa.
Conheci a Neusa quando ela tinha oito anos e então, quando ela fez dezesseis anos, nos casamos. Tivemos três filhos: Yara, Silvio e Francisco. Estamos casados há 58 anos.
Eu era muito jovem ainda quando fui trabalhar numa loja de material de construção, lá pelo lado do bairro de Indianópolis, e então fui tomando gosto pelo tipo de comércio.
Depois de um tempo, comecei a procurar um terreno para alugar e a levantar um pequeno depósito de material de construção; aos poucos, fui realizando esse sonho. Chamei o meu irmão para vir trabalhar comigo e, no dia 15 de maio de 1950, eu, com apenas 23 anos, inaugurei a Casa São Francisco, na então Estrada de Santo Amaro, que tinha, na época, apenas meia pista asfaltada. Só depois de muitos anos a Estrada passou a ser Avenida Santo Amaro.
A minha loja teve o primeiro telefone do bairro e, por muito tempo, era esse o telefone que toda a vizinhança usava.
Tenho muito orgulho de ter tido muitos empregados que trabalharam por muitos anos ao meu lado e que hoje estão aposentados. Hoje a funcionária com mais tempo de casa é Dona Ilse, que trabalha no escritório e está na loja há trinta e sete anos.
Há alguns meses sofri um acidente em meu sítio em São Roque. Fui picado por abelhas africanas que ninguém sabe de onde vieram. De acordo com os médicos, tive mais de mil e quinhentas picadas que resultaram numa série de problemas, tanto que, por meses, permaneci internado numa UTI. E agora, com muita força, coragem, determinação e ajuda de muitos profissionais, tento a minha total recuperação".
Tenho certeza de que a recuperação do Sr. Francisco está para acontecer, para alegria de toda a sua família e para alegria também dos seus funcionários, dos seus clientes e da sua vizinhança. Todos sentem muito a sua falta! A torcida é grande para vê-lo novamente no portão lateral da sua loja, vestido com o seu jaleco azul, proseando com um e com outro. Francisco Braz Filho faz parte do bairro, faz parte da nossa cidade!
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