Um português digno de ser paulista

Agostinho Martins de Souza chegou de Portugal sozinho, vestindo um terno surradíssimo e carregando uma pequena mala de couro amarrada com uma corda. Veio de navio, parou em Santos e subiu para São Paulo, naqueles idos anos 20. Era um português magro, de bigodes (sem dúvida) e cheio de sonhos: iria construir uma vida nova no Brasil, mais precisamente na cidade de São Paulo.

Dentro da mala de couro, Agostinho não carregava roupas. A mala estava cheia de dinheiro, notas e notas enroladas com barbante, tudo o que havia conseguido com a venda de uma quinta no Minho.

Dirigindo-se para a casa de um outro português que já residia em São Paulo, Agostinho teve de cruzar uma ponte sobre um riacho. Já escurecia e Agostinho não viu a tábua solta, tropeçou e… lá se foi a malinha, com tudo o que ele possuía na vida, pra dentro do riacho, perdendo-se na correnteza, no lusco fusco do dia. Agostinho correu pelas margens do riozinho, apanhou um galho de árvore, tentou alçar o tesouro, mas foi tudo em vão. A malinha se foi, e com ela, toda a esperança de Agostinho.

Este é o homem que foi meu avô paterno. Me orgulho de dizer que depois deste começo terrível, Agostinho se recuperou e chegou a possuir muitas casas e propriedades, algumas já vendidas e outras dadas em herança para os cinco filhos que gerou em terras paulistas.

Quando já havia feito dinheiro suficiente para comprar um terno novo e uma gravatinha borboleta, das quais ele tanto gostava, Agostinho foi a uma festa com amigos e ali conheceu Carmela, uma italianinha também recém-chegada da Europa. (É folclore em nossa família que Santos Dumont estava nesta festa, mas não sei se acredito). Carmela veio de Quiete, uma cidadezinha perto de Roma, para ser a governanta de duas crianças da família Cunha Bueno. Agostinho e Carmela se casaram e se estabeleceram na Aclimação, construindo o casarão da Rua Nilo que está lá até hoje, onde meu pai ainda mora.

Tiveram cinco filhos: Agostinho Filho, o Dudu; Dora (em homenagem à Dona Dora Cunha Bueno); Fabio; Julio; e Olavo, meu pai.

Meu avô Agostinho nunca mais retornou a Portugal. Amava São Paulo e amava o Brasil. Era trabalhador e bom pai, lutou com perseverança e não se entregou ao desespero quando sua fortuna sumiu nas águas. Quem a terá achado? Ou a mala ainda estará no fundo do rio?

Agostinho morreu quando meu pai completou oito anos. Minha avó Carmela viu-se, então, sozinha no Brasil, com cinco filhos para criar, mas isso foi possível usando os aluguéis das casas que Agostinho deixara. Os filhos estudaram, se formaram, se casaram e tiveram filhos, dentre os quais uma sou eu.

Gostaria de ter conhecido meu avô Agostinho e lhe dizer que gostei muito da sua escolha de morar em São Paulo, de ali criar seus filhos e do fato de que eu pude nascer paulista também, mas principalmente lhe dizer que admiro sua coragem, sua força e que com homens como ele São Paulo foi construída.

Vô, você é um verdadeiro paulista.

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