Meu pai se chamava Laurindo Convento. Era metalúrgico, morávamos na Vila Paiva, Rua Caçador, tínhamos vindo de Carlópolis, cidadezinha do Paraná. Meu pai gostava muito de circo, fazia números de magia, tinha um boneco e fazia números em que parecia que o boneco falava. Sempre que alguém o convidava, pegava sua maleta e lá ia fazer suas apresentações para as crianças.
Moramos dois anos nesta rua, depois mudamos para Rua Laureano e aos domingos ele ia fazer apresentações em um centro, onde sempre tinha palestras e eu era sua ajudante nos números de magia, primeiro ele entrava no palco e logo depois me chamava, o engraçado é que o pessoal pensava que ia entrar uma moça linda e quando eu entrava no palco, magrinha, cabelos cacheados, não era bonita, todos riam e para o meu pai era a maior felicidade em me ver; nesta época eu tinha 9 anos, era magrinha e miúda.
O tempo passou mudamos novamente para a Vila Guilherme, fui figurante e quando já era adolescente, um dia, apareceu um senhor na minha casa perguntando pelo meu pai. Este senhor estava com um circo armado ali perto de casa e foi fazer um convite para mim e para minha irmã Carmelinda fazer uma apresentação à noite, no circo. Meu pai nem perguntou para nós se a gente ia e já tratou que íamos fazer parte do espetáculo à noite.
Lá fomos nós ao circo, quando as luzes se acenderam e eu olhei para as pessoas que estavam na arquibancada, pensei que ia morrer, parecia que todos os moços do bairro estavam ali olhando com ar de gozação para nós, o circo era tão pobre que a lona era toda remendada, um circo muito fraco e o nome então era de doer – Circo Flor do Maracujá. Fiquei vários dias sem sair de casa, porque as poucas vezes que saia os moços me chamavam de flor do maracujá. Nesta época, morávamos na Rua Joaquina Ramalho, esquina com a Rua João Ventura Batista, pertinho do salão do GDR. Vasco da Gama.
Fui a muitos bailes neste salão, quando não tinha baile lá eu ia a outro no mesmo bairro, que era no São Sebastião, lá ganhei o apelido de Branca. O tempo passou, meus pais de separaram, me casei e mudei de lá. Meu pai foi embora para o Paraná. Um dia, fui fazer uma visita para o meu pai na cidade que ele morava, e tinha um circo na cidade e ele ia fazer uma apresentação. Fui ao circo com minha filhinha Priscila e, quando meu pai entrou no picadeiro com toda sua humildade e felicidade estampada no rosto, falou ao público que queria fazer uma homenagem para uma pessoa e falou que a homenagem era para sua Flor do Maracujá e que era para eu me levantar para as pessoas me conhecerem, fiquei em pé e todos aplaudiram.
Entendi que o quê, um dia, para mim me fez sentir vergonha, depois, foi um motivo de orgulho. Anos depois meu pai faleceu. Quantas saudades de você meu pai.
E-mail: [email protected]