Fins de semana antigos

No final da década de 40, aos domingos, mamãe nos arrumava e papai nos levava para passear. Aos sábados, íamos a bordo do Ford 40 preto passear entre os bosques de eucalipto do Ibirapuera. Lá, fica o campo de treinamento da Portuguesa de Desportos. Era uma parada obrigatória para assistir alguns lances dos treinos. Papai me punha no colo e me dava o volante, foi minha iniciação como motorista. Já aos domingos, nos dirigíamos ao centro, para as sessões “Zig-Zag”, ou recitais no Theatro Municipal.<br><br>Íamos ao Cine Teatro Paramount, na Brigadeiro Luiz Antônio, lindo edifício, hoje, Teatro Abril. Adorava sua plateia e, principalmente, seus camarotes e frisas com poltronas estofadas em veludo e muito dourado na decoração. Como era costume na época, antes do início da sessão e no intervalo, um baleiro oferecia seus produtos, diretamente na plateia. Terminando a sessão, íamos almoçar no Giordano, alguns metros abaixo do cinema, em direção ao centro. A vitrine do restaurante era uma enorme churrasqueira, de pelo menos quatro metros de largura, na qual eram assados frangos. Adorávamos um prato que se chamava Risoto à Catarina. Era um farto arroz bem colorido: carne de galinha, ervilhas, cenouras, repolho, linguiça e ovo picado. <br><br>Outro era o cine-teatro D.Pedro II, em pleno Vale do Anhangabaú, quase esquina com a Avenida São João. A sala era mais despojada, as cadeiras de madeira. A grande atração era os seriados. Lembro-me do Flash Gordon, do Tarzan, do Hopalong Casidy, dos documentários importados, saindo do cinema. Tomávamos um refrigerante em bares das proximidades.<br><br>A glória era irmos ao Cine Metro, na Avenida São João, sala hoje ocupada por uma igreja evangélica, era uma construção imponente no mais puro estilo de cinema americano do início do século. O hall de espera era forrado por um colorido tapete que se estendia para a sala de exibição, forrando o piso de acesso às confortáveis poltronas estofadas em couro. Separando o hall da sala, grandes portas com descomunais vidros redondos e escuros, através dos quais víamos o bruxulear luminoso do filme que estava sendo exibido. <br><br>A atração eram os filmes de Tom e Jerry, além de um ótimo jornal da Metro. Foi à saída de uma das sessões “Zig-Zag”, que papai nos fez experimentar, pela primeira vez, uma garrafa de Coca-Cola. Até então o refrigerante era o Guaraná Champgane, da Antártica. Já na década de 50, passamos a ir ao novo Cine Rio, na Rua da Consolação, que passava o programa da Metro. No local, instalou-se a TV Record. O prédio foi atingido, mais tarde, por um terrível incêndio.<br><br>Outra lembrança que tenho é a da estreia do filme “A Branca de Neve e Os Sete Anões”, revolucionária realização dos estúdios de Walter Disney. Aconteceu com pompa e circunstâncias no enorme Cine Art Palacio. Pelo que me lembro do cinema era o exibidor dos filmes alemães, isto antes de explodir a Guerra. A sala era monumental, o seu hall de espera era iluminado por um enorme lustre, com pelo menos uns cinco metros de raio, todo espelhado e que refletia a massa de espectadores aglomerados a espera. Essa imagem me fascinou tanto quanto o colorido e o som do filme.<br><br>Naqueles saudosos tempos as sessões Zig-Zag era a oportunidade de convívio das famílias e de seus amigos.<br><br><br>E-mail: [email protected]