Fim do mundo!

Enquanto olhava meu álbum de fotografias, me lembrei de quando ainda eu era só uma criança, e ouvi falar do fim do mundo.
 
Para mim, não tinha sentido algum, de modo que não me interessava nem o seu começo nem o seu fim.
 
Lembro-me, vagamente, de umas mulheres nervosas, que choravam, falavam de um tal cometa que andava pelo céu, e que mataria a todos quando caísse na terra.
 
Mas, numa noite, acordei com os cochichos de uma senhora espanhola, Dona Josefina, da rua onde morávamos, que falava da força do temível cometa.
 
Aquilo que até então não era de meu interesse, que nem vencia a preguiça dos meus olhos, pareceu-me, de repente, maravilhoso!
 
Era um pavão branco que caminhava pela noite sozinho ao encontro da sua festa?
 
Gostei muito do cometa. Devia sempre haver um cometa no céu, como há lua, sol e estrelas.
 
Por que as pessoas andavam tão apavoradas?
 
A mim não me causava medo nenhum.
 
Ora, o cometa desapareceu. Aqueles que o temiam, ficaram mudos. O mundo não se acabou, talvez tenha ficado um pouco triste; mas que importância tem a tristeza das crianças?
 
Passou-se muito tempo…
 
Aprendi muitas coisas, entre as quais, o suposto sentido do mundo. Não duvido que o mundo tenha sentido e que muitos cometas e fins do mundo ainda virão.
 
Deve ter mesmo muitos, inúmeros pois, ao meu redor, as pessoas mais ilustres e sábias fazem cada coisa, que bem se vê haver um sentido do mundo peculiar a cada um.
 
Dizem que o mundo termina no ano dois mil, ninguém fala em cometa. É pena, pois eu gostaria de tornar a ver um, para verificar se a lembrança que conservo desta imagem do céu é verdadeira ou inventada pelo sono e os meus olhos, naquela já tão antiga noite.
 
Se o mundo vai acabar? Não sei, mas, certamente saberemos qual era o seu verdadeiro sentido.
 
Se valeu alguns trabalharem tanto, e outros tão pouco!
 
Por que uns foram tão sinceros, enquanto outros foram tão hipócritas, tão falsos, ou tão leais?
 
Por que pensamos tanto nos outros ou só em nós mesmos? Por que fizemos votos de pobreza ou de riqueza?
 
Porque pedindo a Deus, dono de todos os mundos, que trate com benignidade as criaturas que se preparam para encerrar a sua carreira mortal, teremos resposta para tudo.
 
Há mesmo alguns místicos, segundo li, que, na Índia, lançam flores ao fogo, num rito de adoração.
 
Enquanto isso, os planetas, nos lugares que lhe competem, na ordem do universo, neste universo de mistérios a que estamos ligados e no qual, por vezes, arrogamos posição que não temos, insignificantes que somos, na tremenda grandiosidade total, seguem sua ordem natural.
 
Há algum tempo para reflexão, arrependimento e melhoras: o ano dois mil chegou e não houve fim do mundo!
 
Mas, todos nós, um dia, teremos o nosso fim do mundo, com ou sem cometas!