O conceito de fantasma nos diz que é a alma ou espírito de uma pessoa ou de um animal falecido que pode aparecer aos vivos. Essa crença vem desde tempos imemoriais. Os fantasmas são descritos como essências solitárias que assombram um local, objetos ou pessoas. Essas imagens estão muito ligadas à literatura e a filmes de terror. Existe também o conceito de que nos animais inferiores não existem sonhos como nos humanos. É comum ver-se animais, principalmente o cão com o qual convivemos, exibir movimentos esporádicos, abrir a boca como se estivesse comendo, movimentar rapidamente pernas ou os olhos, ou mesmo latir enquanto dorme. Tais acontecimentos são atribuídos por alguns àquilo que no humano corresponderia ao sonho e neste caso são chamados de fantasmas.
Mas, se prestarmos atenção ao nosso dia a dia chegaremos à conclusão que não só os animais, não importa seu grau de evolução, é que originam fantasmas. As cidades também têm os seus. Objetos ou costumes comuns em certas épocas, em qualquer cidade considerada, com o passar do tempo, como que saem de moda e são lançados no esquecimento. E não nos esqueçamos que deixar de ser lembrado equivale a morrer. Ou seja, esses objetos, fatos ou costumes passam a ser, para a cidade, verdadeiros fantasmas. Vou lembrar-lhes de maneira aleatória, à medida que me vêm à memória, alguns deles, naturalmente pertencentes à nossa cidade.
Bonde: antigo veículo de transporte público elétrico, que se deslocava sobre trilhos. Algumas pessoas acham que faz falta e que deveria ser ressuscitado.
Garoa: quantas vezes me vi ensopado por essa água vaporosa que até que era charmosa, relativamente a São Paulo: "Terra da Garoa".
Sereno: quem na época não ouviu sua mãe dizer "Cuidado com o sereno". Agasalhe-se. Ele era culpado por causar resfriados, gripes e até algo pior relativo ao pulmão.
Gazômetro: em certa região da cidade havia, há muito tempo, enormes reservatórios de gás para ser distribuído pelas casas. Era o gás de rua de hoje. Não existia o sistema de “bujões”. Na época, alguns privilegiados tinham, na rua em que moravam, encanamentos para tanto. Os demais usavam carvão ou lenha para cozinhar. As pessoas se aproximavam desses reservatórios a fim de usufruir de uma possível cura de problemas respiratórios, pois havia a crença de que quando se aspirava por um tempo esse gás que escapava em quantidade mínima, a cura seria possível.
Gasogênio: na época da Segunda Guerra Mundial a gasolina estava racionada, era pouca, uma vez que era totalmente importada. Foi desenvolvida então uma técnica para mover os motores a combustão dos automóveis a qual originava gás comburente a partir do carvão.
Tostão: moeda de menor valor da era do “mil réis”. Com ela comprava-se ou balas ou figurinhas.
Quatrocentão: ainda da era do “mil réis”, era o nome dado à moeda de quatrocentos réis. Tinha esse nome por ser a maior moeda do sistema.
Leiteiro: utilizando-se de carroça puxada a burro ou cavalo esse homem vendia, percorrendo as ruas da cidade, leite embalado em garrafa de vidro reutilizável. Não havia descartáveis.
Padeiro: idem, vendia pão a domicílio. Oferecia não só pão em bisnaga (o pão tipo francês apareceu mais tarde) como também pães doces.
Geleiro: com as mesmas características dos dois anteriores, este vendia gelo em pedra para ser colocado na geladeira. E cortava a pedra do tamanho solicitado pelo freguês. Obviamente isso acontecia para servir as famílias que não tinham geladeira elétrica, que só se generalizou tempos depois. É importante que estou me referindo à época em que nosso país importava praticamente de tudo que se referia a utilidades domésticas. Muitas pessoas só conheciam essas coisas por intermédio do cinema, principalmente.
Venda: estabelecimento destinado a vender praticamente tudo usado no consumo diário das famílias, como alimentos (secos e molhados) e produtos de limpeza. Precursora longínqua dos mercados e depois supermercados.
Caderneta: muitos pronunciavam "cardeneta". Quando iam à venda (ou armazém) as pessoas comumente levavam consigo a famosa caderneta e em vez de pagar no ato, o vendeiro anotava, na dita cuja, a quantia gasta e no fim da semana ou do mês a pessoa saldava o montante em mil réis, dinheiro da época. Quem sabe se não foi aí que nasceu o tal de "pindura"? Quem sabe?
Quitanda: muito comum em épocas passadas (hoje existem ainda algumas). Vendiam o que não era comum encontrar nas vendas, ou seja, verduras. Vegetais em geral e ovos. Nela não era comum o uso das cadernetas.
Carvoaria: local especializado na venda de carvão vegetal para alimentar os fogões da época. Muito mais tarde tornou-se comum o uso de gás encanado ou engarrafado. Com isso, as carvoarias e os carvoeiros tornaram-se fantasmas.
Paneleiro: pessoa que circulava carregando sua parafernália e consertava a domicílio todo tipo de panela. Hoje tem localização fixa nas feiras livres.
Turco da prestação: nome que se dava aos mascates que, de casa em casa, vendiam produtos de vestuário, de cama e de mesa. E o faziam, exigindo até que o pagamento fosse feito a prestação. Desse modo, todo mês batia à porta do freguês para o recebimento da prestação. Munido de paciência de Jó, não brigava nem se ofendia se a pessoa não tinha a quantia necessária e deixava para a próxima vez. Curioso é que nem sempre ou quase nunca o personagem era turco.
Talão de racionamento: inventado e usado durante a amaldiçoada Segunda Guerra Mundial. Tudo era racionado. Diziam, quem sabe se era verdade, que os alimentos tinham outro destino mais premente. Mas, o que importa é que as pessoas saiam de madrugada de suas casas para tomar lugar na fila para comprar alimentos, pão (horrível), leite, isso quando havia o suficiente. Essas pessoas, naturalmente, eram o “zé-povinho”. Interessante é que ninguém conseguia explicar o motivo de muitas pessoas tornarem-se, da noite para o dia, muito ricas.
Rhum Crosotado: em todos os bondes havia, no seu interior, uma série de propagandas. Uma delas, a mais comentada e, creio, a mais lembrada, que digam os leitores, era a do medicamento denominado Rhum Creosotado. Era famosa a frase que o acompanhava: "Veja ilustre passageiro o belo tipo faceiro que está ao seu lado e, no entanto, acredite, quase morreu de bronquite. Salvou-o o Rhum Crosotado."
CMTC: Companhia Municipal de Transporte Coletivo. Sigla da companhia do município encarregada do transporte público.
Gilda: apelido dado a um famoso ônibus muito charmoso que circulou por vários anos.
Panair: companhia aérea extinta há vários anos.
Lampião de gás: iluminava as ruas de São Paulo. Postes com luminárias em suas extremidades e ligadas à tubulação de gás subterrânea. Toda tardinha e todo fim da madrugada, ao clarear, um funcionário acendia e apagava o bico de gás com uma chama existente na extremidade de uma vara e de um cone para o apagamento.
Rio Tietê limpo: sim, é verdade. Há muito tempo esse importante rio paulistano era limpo de tal maneira que nele se andava de barco a remo dos clubes ali existentes, como também nele se nadava tranquilamente.
Gazetinha: jornal infantil, não só recreativo como também instrutivo. Produto do tradicional jornal “A Gazeta”.
A Gazeta: jornal de circulação elevada para a época. Tradicional e bastante difundido entre os paulistanos.
Caneta: as primeiras canetas de uso corrente eram compostas por uma pena de aço e um suporte para ela cilíndrico de madeira (atuais fantasmas). Havia a necessidade do uso do tinteiro, reservatório de vidro contendo tinta na qual periodicamente a pena era mergulhada. Nas carteiras escolares havia um orifício circular para conter o tinteiro. Depois, surgiram as canetas-tinteiro com reservatório próprio de tinta e posteriormente as atuais esferográficas.
Mala estudantil: há muito tempo atrás, os estudantes não iam para a escola com mochila, mas sim, com uma mala onde eram colocados os livros, cadernos, etc. Hoje, o estudante sofre da coluna pelo peso transportado às costas. Naquele tempo levava o peso suportado por um dos braços.
Marmita: recipiente de alumínio em que os trabalhadores levavam seu almoço ao trabalho. Alguns comiam a comida fria, outros, felizardos, tinham onde aquecê-la. Creio que seu uso hoje é menos frequente.
Serenata: nos tempos da São Paulo antiga, romântica, grupos de amigos se reuniam para tocar frente à casa da mulher amada. É também interessante lembrar que naquele tempo quem tocava violão era malquisto e considerado vagabundo!
Polaina: semelhante à metade de um calçado e feito de tecido resistente (feltro) e que era colocado sobre o sapato. Era considerado artigo de luxo e de alta distinção.
Cueca samba-canção: enorme cueca cujas extremidades atingiam até a parte distal da coxa. Afiançavam os relutantes quando do lançamento da cueca atual, bem menor que a antiga dava mais proteção e eram mais másculas.
Galocha: calçado de borracha usado sobre o sapato em dias de chuva.
Colete: usado sob o paletó, dava certa marca de distinção. Os que não o conheceram, basta prestar atenção nos filmes de faroeste. Todos os atores os usam e costumam colocar em seus bolsinhos moedas ou seu relógio preso a uma corrente.
Relógio de bolso: os homens o usavam e o colocavam no bolsinho do colete. Hoje, raramente alguém o usa. Foi substituído pelo relógio de pulso.
Chapéu: todos hoje sabem do que se trata, mas raramente alguém o usa. Nas primeiras décadas do século XX todos os homens o usavam.
Palheta: chapéu feito não de tecido (geralmente feltro), mas sim, de palha trançada, daí seu nome.
Pince nez: óculos que em vez de ser usado como os óculos comuns, com hastes colocadas sobre as orelhas, é simplesmente um óculos sem as hastes tradicionais e sim suportado por uma única haste e colocado frente aos olhos, suportado por uma das mãos. Era usado pera ler ou para focalizar um objeto ou um rosto. Seu uso constante era cansativo.
Luvas: eram usadas com frequência indicando até um certo status social, mesmo em tempo quente. A maioria as usava exatamente para se proteger do frio. Era sinal de falta de educação dar a mão sem descalçar a luva.
Anel de formatura: joia que hoje, ao que parece, caiu totalmente em desuso, mas em épocas passadas era comum se ver, no dedo anular do médico, anel com pedra verde e no do advogado de cor vermelha.
Maria Chiquinha: tipo de penteado usado muito em épocas passadas, principalmente donzelas.
Livro do mês: coleção de livros de alta qualidade caracterizados pelo lançamento, a cada mês, de obras literárias. Com o que se segue, muito participou da educação e do amor pela leitura.
Coleção Saraiva: idem
Glostora: todo jovem das décadas passadas que se prezava o usava em seus cabelos e o dito cujo ficava brilhante e endurecido (a prova de ventania). Maior sucesso entre as moçoilas.
Chanca: era o nome que se dava à atual chuteira. Feita de couro muito duro e com cordão grosseiro para amarrá-la aos pés. Após cada jogo, o esportista dava a seus pés um repousaste escalda-pés. Ai dos pés e das canelas do adversário.
Capotão: a antiga bola de futebol era composta de uma esfera de borracha com um tubo, na época chamado “bigolin”, para a entrada do ar e para enchê-la e envolta por um couro muito rígido chamado “capotão” (podia ser comparada com um pneu e sua câmara). O couro que envolvia o bigolin era, por sua vez, amarrado por um cordão, também rígido, de tal maneira que na superfície da bola resultava uma saliência bem evidente, terror dos jogadores e principalmente dos goleiros.
Guarda-sol: nos dias de sol ardente as mulheres, principalmente, se utilizavam do guarda-sol para se proteger, o qual nada mais era do que o guarda-chuva dos dias chuvosos.
Prático licenciado: há muito tempo atrás existiam profissionais da saúde que não necessitavam cursar uma faculdade para poder exercer a profissão. Faziam simplesmente um curso. Eram chamados práticos licenciados. Muitos exerciam a profissão de dentistas. Muito procurados devido aos baixos honorários. Quem se recorda do fato há de lembrar-se de quantas vezes se ia ao dentista para apenas trocar o algodão. Claro que o resultado apareceu anos depois após a perda de indispensáveis dentes.
Corso: no Carnaval era muito comum, na Avenida São João, o desfile de automóveis, conversíveis ou não, repletos de foliões.
Lança-perfume: objeto de vidro ou de metal contendo em seu interior líquido perfumado misturado a um gás. Quando aberta a válvula o líquido era lançado a distância. Proibido quando passou a ser usado como tóxico.
Confete: no Carnaval, minúsculos discos de papel colorido eram lançados aos punhados sobre os foliões. Daí se instituiu a batalha de confetes.
Serpentina: também usada no Carnaval, consistia em rolos estreitos de papel colorido que, quando devidamente lançados, formavam no ar longas tiras.
Esses são apenas alguns dos fantasmas que pululam em nossa cidade. Evidentemente, muitos outros existem. Minha intenção foi apenas a de despertar no leitor curiosidade em relação ao assunto. São fantasmas que não assustam e apenas conduzem para a nostalgia.
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