A minha infância querida

Eu era ainda pequeno
morava na Freguesia
em uma casinha antiga,
que ainda hoje esta lá
no velho Largo da Matriz.
Minha mãe viúva,
pobre e analfabeta,
teve que lutar a beça,
para criar a mim e minhas duas irmãs.
Perdi meu pai muito cedo,
então, cresci cheio de medo.
de perder também minha mãe.

Naquele tempo no bairro
não havia nem shopping
nem supermercados
e para comprar certas coisas,
ninguém saia de casa.
Quase tudo que a gente queria
batia em nossa porta.
Tinha padeiro, leiteiro, jornaleiro,
amolador de facas, soldador de panelas,
e é claro, até carroça do lixeiro,
que sempre nos fins de ano
entregava um cartão de Natal
para faturar as gorjetas.

Ninguém comprava em lojas.
Moveis, camisas, calças ou calção,
tudo isso era vendido
pelo "turco" da prestação.
Tinha também muita coisa
que dava água na boca.
Machadinho,quebra queixo,
e bijuzeiro, de deixar a turma louca,
nessa época eu ainda menino
esperava as vezes o dia inteiro
para ouvir o som da matraca.
e a pior coisa nessa hora
era ouvir minha mãe dizer:
– “Meu filho hoje não tem dinheiro”.

Um dia o meu padrinho,
que um dia me batizou,
no dia do meu aniversário
escrito a caneta tinteiro
deu-me um bonito envelope,
contendo cinquenta cruzeiros.
Gastei tudo em Biju!
Depois passei muito mal
noite inteira no banheiro,
limpando-me com jornal.
Naquele tempo apurado
de carestia pós-guerra,
O jornal velho era usado,
cortadinho e pendurado
pelos pobres, no banheiro.

Na escola a gente apanhava.
E para não apanhar de novo,
quando chegava a casa,
ninguém contava para os pais.
Curtia calado a surra,
esquecia e se preparava,
pois todo mundo sabia
que quem não andasse na linha
com certeza no dia seguinte,
daquele mesmo "bom" professor
iria apanhar muito mais.

Os dias de um menino que viveu
aqui em São Paulo, entre quarenta,
e cinquenta, eram uns dias compridos,
que pareciam sem fim.
Depois de sair da escola,
eu ia para casa almoçar
depois estudava depressa
e ia correndo brincar.
Então as ruas e as praças
Eram o nosso quintal,
futebol em qualquer espaço,
no campo, ou nas calçadas,
na rua ou qualquer lugar já servia
para gente fazer um racha,
no bairro da Freguesia.

Tinha jogo de bolinha,
Pião, malha, caxeta,
e quem saísse dos jogos…
Levaria muita cachuleta,
nos braços ou nas orelhas,
mas o que mais se fazia
de tarde, de noite ou de dia,
era muito troca-troca
de figurinhas, é claro.
Tinha brincadeira de se esconder,
jogo de taco, passar anel e pega-pega.
Mas do que eu mais gostava,
era brincar de cabra-cega,

Roubar frutas nas chácaras,
pescar no Rio Tietê,
ver TV no vizinho.
Fumar escondido no mato
era o maior dos baratos.
E de noite antes de tomar banho.
ter de catar carrapatos,
levar picadas de abelhas,
fazer trocas de gibis.
Desmanchar formigueiro,
olhar para as copas das arvores
para ver se havia ninhos.
Depois armar arapuca
ir caçar passarinhos.
O chato de tudo isso
era ouvir a mãe gritar
chamando a filharada,
a ir para casa jantar.
E no outro dia bem cedo
sair da cama, com frio.
e junto com aquele povo
seguir para escola de novo
e estudar,rezando
e quase implorando
para aquela aula acabar,
e a gente poder de novo
recomeçar a brincar.

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