Eu, o fofoqueiro! – Parte II

Entre 1958/1959)

Neste segundo caso eu me vi dentro de um "balaio de gatos" enfurecidos. Foi com certeza a maior "fria" da minha vida.

Mudando os nomes dos protagonistas (Não sou besta! Sei lá se ainda estão vivos… E alguém venha me capar), vou contado a história sem omitir nada.

Estou saindo de casa e a Nina, que morava em frente, conversando na varanda com as amigas, me vê e chama:

"Ciccio, aonde você vai?"

"Ao jornaleiro, comprar um gibi!"

"Então, espera um pouco, por favor.". Entra, e volta com o dinheiro. Entrega-me e diz: "Compra o "Capricho" e o "Grande Hotel". E pergunta se já chegou o "Jornal das Moças".".

Fui e comprei meu "Pato Donald" e as revistas que ela pediu. Começou a uma chuvinha e eu apertei o passo e voltei.

"Taí as tuas revistas, o jornal ainda não chegou.", disse eu, do portão.

"Entra aqui na varanda, que a chuva tá apertando.". Entrei. Cai o toró. "Senta aí e fica lendo o teu gibi até a chuva passar.". Eu fiquei.

Uma das amigas de Nina diz: "Vai, conta o que você ia começar a contar.".

E Nina começa a contar, eu lendo o gibi. Ela falando e eu começo a fingir que estou lendo, mas estou atento à história que ela contava. Cada vez mais atento. Na minha inocência e mente fértil, Nina contava uma história de terror.

Nina narrava:

"Eu já tava com a bunda quadrada de ficar tanto tempo sentada – tava lá, desde as três da matina, desfiando o rosário no velório, tava de saco cheio. Levantei e disse para a minha mãe que eu ia no banheiro "piscià" (fazer xixi) e depois ia esticar um pouco as pernas. Fiz a "necessidade", lavei as mãos, abri a porta, dei uma olhada no espelho e ajeitei os cabelos. Aí, "mi" aparece o Gianni. "Mi" entra no banheiro e fecha a porta."

"Nossa! Que tarado!" – comenta a amiga.

"Tarado mesmo, "bella"! Ele tava com um "fogo no rabo" que só vendo. Começou a "mi" apertar todinha, dizendo que eu estava gostosona e que ele estava muito "precisado". Pegou nas minhas mãos e "mi" disse: "Vem aqui na banheira, vem.".

"Ma che spudoratto! (mas que despudorado!)" – diz a amiga, escandalizada. "E você, o que fez?"

"Eu, "bella", olhei pra ele e disse: Nessa banheira? Faz poucas horas que aí lavaram o defunto! Que nojo!”.

"E o Gianni?", pergunta a amiga.

"O Gianni ficou meio decepcionado. Começou a "mi" alisar, apertar. "Mi" beijou no pescoço, "mi" mordeu a orelha e "mi" disse no pé do ouvido que se eu não queria, ele não ia forçar. E eu, parecia que "mi" ia pegar fogo. Então eu falei: "Eu disse pra você que eu tinha nojo". "Não que não queria…". Fui dizendo isso e empurrando ele pra dentro da banheira.".

"Nossa! Que cadelona! Você não ficou pensando que podia chegar alguém? Que o defunto foi banhado lá?" – pergunta a amiga.

"Bella," – responde a Nina – "Não pensei em nada. Tava tão bom que eu não ia ligar a mínima se o defunto ainda estivesse lá na banheira junto com a gente.". Riu a Nina e riram as amigas.

Eu, terrificado com a história do defunto, fechei o gibi que fingia ler, levantei e disse: "Parou a chuva, vou pra casa.". "Arivederci.".

"Tchau, Ciccio, obrigado por ter comprado as minhas revistas"…

Entro em casa e, na sala, a fazer crochê, estão minha avó, minha mãe e uma vizinha. Digo para a "mamma" que estava na Nina esperando a chuva passar. Ela diz que sabia. Tinha me visto pela janela. Minha avó olha-me por cima dos óculos e pergunta: "O que foi? Você está pálido, esquisito. Fala!". Eu desconversei, disse que não era nada. A "nonna" diz: "Não mente! Sempre sei quando há algo errado com você. Desembucha!".

E eu "morri" duas vezes. Por estar morrendo de medo e morrendo de vergonha em confessar o medo. Disse: "É que a Nina contou uma história de defunto. Fiquei assustado…". E a minha avó pediu que eu contasse a história, disse que contando o medo acabava… E eu contei para a "mamma", "nonna" e à vizinha – a última pessoa a quem eu devia ter contado… Mais que a história do defunto, certos detalhes pareciam ser de maior interesse para a minha "nonna". Ela, aos poucos, foi tirando à sacarolha tudo o que eu sabia.

À noite, a família de Nina estava todinha lá em casa. Inclusive ela, de olhos inchados e lacrimejantes. Falatório, bate-boca, troca de farpas. Era como se lá estivessem a Máfia e a Camorra. Estavam todos raivosos e interessadíssimos em ouvir a história infame e caluniosa que eu havia "espalhado" (Que a vizinha espalhou!). Vendo-me constrangido, a "nonna" assumiu e contou tudo… Pela história, a família de Nina começou a duvidar que o caso fosse realmente de calúnia. Onde há fumaça, há fogo… E, por via das dúvidas…

Quatro meses depois, Nina e Gianni puseram um fim a cinco anos de noivado e se casaram. Não nos mandaram convite… E poucos meses se passam e nasce o primogênito com 45 cm. e 4 quilos e oitocentos gramas. A mãe da Nina diz que ele nasceu de sete meses, mas para as parteiras e fofoqueiras de plantão lá da rua, a história estava muito mal contada. "Prematuro? Com-quatro-quilos-e-oitocentos???… Sei!".

Já adulto, conversávamos eu e minha mãe sobre esse fato. Ela lembrou da frase da minha "nona": "Annamarí, essa Nina só faz loucura na vida. Imagina só, em um velório! O morto nem bem saindo pela porta e um vivo entrando pela…". Escandalizada com o absurdo que ia dizer, vovó parou de falar e as duas caíram na risada.

Já estava terminando o ginásio quando revi a Nina. Ela disse-me que a raiva que sentiu de mim não durou muito, pois ela logo percebeu que, não fosse eu, o Gianni iria empurrar com a barriga aqueles cinco anos de noivado, transformando-os em dez, vinte… E o filho nascera de sete meses mesmo (fizemos as contas). A culpa era da mãe dela, que era muito exibida. A criança tinha nascido com menos de dois quilos. Rimos muito com a "história" da banheira. E ela riu ainda mais quando eu contei que achava que ela contava uma história de terror.

O Gianni, eu o via algumas vezes. E todas as vezes ele me "elogiava" muito. Só não dizia o quanto eu era bom, bonito, maravilhoso, inteligente…

Lembro que naquele dia, após a saída da família da Nina, "sobrou" para a minha mãe e para vovó. Meu pai culpou as duas por aquela situação desagradável. Que, de ora em diante, minha avó, ou minha mãe, quando percebesse algo errado comigo, que me levasse a um canto e perguntasse. Que não fizesse mais isso na frente de estranhos. E que se a tal vizinha pusesse os pés dentro de nossa casa, ele iria chutar o "rabo" dela até o portão.

Minha avó nunca mais falou com a vizinha. E a vizinha também não foi convidada para o casamento de Nina.

E eu, um apaixonado por vovó e mamãe, mas "testardo", senti um prazer muito grande de ver meu pai me defendendo e "caindo de pau" sobre elas… Sei lá, acho que era uma espécie de vingança porca…

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