Estávamos em 1966

Estávamos em 1966, a crise era enorme, mas bem menor do que as que ainda viriam.

Mato Grosso era o apelido de Alcebíades Callis – que eu lhe tinha dado na época; uma singela homenagem ao seu estado de origem, além de esconder a dificuldade em pronunciar seu nome de batismo. Moço decidido e forte era o mato-grossense. Estava em São Paulo para vencer. Com as poucas economias trazidas se estabelecera em pensão nos Campos Elíseos, a uma distância de dez minutos a pé do centro (em velocidade forçada), local das principais empresas da cidade, onde, antevia com razão, iria trabalhar.

Conhecemos-nos por iniciar juntos na Cia. Nitroquimica, na Praça Ramos de Azevedo, nº. 254.

Antes de o expediente se iniciar, ele ficava no lavabo, fazendo o asseio do rosto para enfrentar o árduo trabalho. Encobria o jejum com bochechos de água na pia do banheiro da empresa. Numa manhã, ao entrar no sanitário, assustou-se com o movimento e com o tumulto dos escriturários. Estavam dois a segurar um jovem rebelde visivelmente alcoolizado (o Chiquinho) e um terceiro a forçá-lo a engolir o café amargo, enquanto outro pingava sumo de limão no seu ouvido direito. Vacilante, Mato Grosso perguntou o motivo da enorme bebedeira.
— Você não está sabendo? — respondeu um escriturário.
— Como os salários estão atrasados quatro meses, estamos quase todos sem dinheiro. Hoje cedo, as filhas dele pediram leite. Como não tinha nem dinheiro pro leite, veio disposto a quebrar tudo. Antes, encheu a cara de pinga para criar coragem.

Introspectivo, Mato Grosso pensou:
— Ainda bem que não tenho filhos, só a pensão como despesa.

Com dois meses de atraso no pagamento, recebera oferta de arroz e feijão do departamento pessoal, por intermédio do Sr. Canhoto; debitariam do próximo salário, quando houvesse. Recusou:
— A dona da pensão rejeitara o mantimento como parte do aluguel, queria dinheiro vivo.

Com tamanha preocupação, chegou atrasado, dois minutos após a hora de entrar. Perplexo, não encontrou seu cartão de ponto, a chapeira havia sido fechada com grosso cadeado. Foi tomar assento defronte do vice-presidente, Dr. Joaquim. Pálido, a verter suor pelo rosto, abdome dolorido de fome e pela corrida veloz, aguardou a fala do repressor:
— A empresa não admite atraso de qualquer espécie. Hoje foram dois minutos, amanhã poderão ser cinco — disse, segurando o cartão de ponto na mão direita e sua carteira profissional na esquerda, para depois fixar a leitura na contracapa e declamar seu discurso imponente, copiado de Alexandre Marcondes, da Carteira Profissional.
— Pode ser um padrão de honra, pode ser uma advertência…

Num rasgo de cólera, exaltado e enfurecido, o mato-grossense golpeou a mesa com violência e disse:
— Agora o senhor vai me ouvir! Sabe o porquê do atraso? Fiquei sem dormir até altas horas da madrugada! A dona da pensão quer receber, e ficou a me aguardar na sala! Só consegui entrar com tudo escuro. Logo cedo, não tive a mesma sorte, não me desvencilhei, lá estava ela a falar solicitando minha retirada, com a mala na mão. Ela é igualzinha ao senhor, não admite atraso. Pague o que me deve, já! Sem atraso…!

Desmaiou abatido pela loucura e pela fome.

Esta passagem narrada aconteceu no início de 1966, na empresa Nitroquimica, na Praça Ramos de Azevedo, nº. 254. Na época, Sr. Joaquim era o vice-presidente; o Senhor Canhoto, o chefe do Pessoal e o proprietário ou presidente; e o atual dono do grupo, o senhor Antonio Ermírio de Morais (filho de José Ermírio de Morais – 1890-1973). Trabalhávamos na seção de rayon, da empresa desse grupo, a Nitroquimica.

Antonio Ermírio foi candidato ao governo de São Paulo em 1986, tendo conseguido 1.100.000 votos. Produziu e são de sua autoria três peças teatrais: Brasil S.A., SOS Brasil e Acorda Brasil.

É autor de diversas frases, dentre elas: ”O brasileiro é do trabalho, e não da vagabundagem”.

Nos atuais dias é o homem mais rico do Brasil e continua presidente do grupo, que possui 46 empresas, dentre as quais o Banco Votorantin S.A. e a BV – Financeira, cuja sociedade de crédito quase me vitimou recentemente no “Golpe do Empréstimo” do aposentado.

O funcionário Alcebíades Callis retornou para seu estado de origem, Mato Grosso, hoje do Sul. Do Chiquinho, personagem e trabalhador em estado etílico do conto, nunca mais tiveram notícias de seu paradeiro. Espero que não tenha se tornado da ala da “vagabundagem”.

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