Entre lutadores e abençoados

São Paulo foi feita por lutadores e abençoados. Por gente que construiu casas e castelos, que viveu sonhos e criou abrigos. Cada um trouxe de longe suas crenças e tradições, fundiram-nas e desta união surgiram personagens forjados no aço.

Tal como uma pequena senhora que viveu por mais de cinquenta anos nesta cidade.

Como se fosse uma névoa, lá no passado, tenho uma imagem dela, envolvendo-me em seus braços, num xale azul, tentando amainar o frio.

O Colégio Romão Puigari, na Rangel Pestana, foi seu primeiro cenário. Não que ela seria personagem de artes propriamente dita, mas artista nos dias intermináveis da vida.

Custou um pouco para aportuguesar o castelhano recitado e cantado em casa. Como filha de um casal de andaluzes, pouco sabia da língua portuguesa, que aos poucos e com muito custo assimilou. A família se centrava no pai e na mãe e eram eles os únicos com direito ao falar e fazer, cabendo aos filhos o dever de obedecer e cumprir.

Mas sua têmpera era mais forte. Jovem, ampliou seus horizontes. O trajeto da Rua Monsenhor Andrade até a Avenida Rangel Pestana avançou pela Rua Piratininga, e por muito tempo trabalhou na Fábrica de Cigarros Caruso, berço de suas primeiras confidências femininas e sonhos. Seu mundo era o bairro do Brás, porto de imigrantes italianos e espanhóis cujas famílias, irmanadas pela distância da pátria mãe, tornavam-se unidas. O quadrilátero da Rua Monsenhor Andrade / Assunção / Travessa do Lameirão e Rua do Gasômetro era o limite inicial daquele Brás dos anos 20 / 30. Limite esse, vez ou outra, ampliado para os cinemas na Rangel Pestana e Largo da Concórdia.

De 1922 a 1945 sua vida voou, e nesse voo mostrou seu espírito guerreiro, aprendendo e lutando contra o cerceamento da rígida educação espanhola, tanto que casou com quem escolheu e quando quis.

Festa, porém, não houve. O falecimento do pai poucos dias antes inibia qualquer outra manifestação que não fosse a dor e o sofrimento.

Deixava de viver somente no Brás, passando a cultivar novos sonhos na Zona Norte da cidade, mais precisamente na Rua Bogotá, no ponto final do ônibus Itaberaba.

Trocava o cotidiano, os cinemas, as amigas, para protagonizar uma nova vida. Pioneira, longe e afastada de quase tudo, na casa recém construída, com cerca de arames ou pequenas ripas cuja única finalidade era de separar toscamente propriedades, nada mais.

Rua de terra batida, esgoto a céu aberto. Poço no fundo do quintal. A venda na esquina fornecendo fiado até o fim da semana, quando as contas eram liquidadas religiosamente. Vez por outra, uma corrida à farmácia, ao posto de saúde, já que o filhote pequeno, geralmente, dava trabalho.

O rádio sempre ligado era a única fonte de entretenimento e janela com o mundo exterior. Rádio São Paulo, com a interminável sequência de novelas, era sua escuta constante (e a minha também). Predileta para ela, imposta para mim.

Periodicamente um passeio, e ia eu feliz da vida ver um novo filme. Quantas e quantas vezes ela não me levou no Cine Metro, no Ipiranga, no Broadway, onde suspirava por seus artistas prediletos: o francês Charles Boyer, o espanhol José Mojica, Eroll Flynn, Mario Lanza, dentre outros. Meu único problema era que os filmes que ela me levava a assistir nunca viravam bang-bang, e eu sempre saia frustrado do cinema.

Dali ao encontro com o meu pai, uma rápida passadinha no Ayrosa comer aquelas telefônicas pizzas de muzzarela, uma esticada até o Brás, ou então voltar para casa, não sem antes ganhar o último número da revista Seleções, da Tricô e Crochê, ou então da quilométrica novela O Direito de Nascer, que à época era vendida em pequenos livretos que saíam periodicamente.

Um dia, a mudança drástica. Junto com a vinda da filha, a venda da casa e foram para a Lapa. O companheiro deixara de ser empregado e se intitulava comerciante. O restaurante na Rua Guaicurus, em frente ao Tendal, seria a labuta diária dos próximos três anos. Não era mais apenas a provedora do lar, mas sim atuante na linha de frente. Horas e horas na cozinha preparando almoços e jantares sem descanso. O bar e o restaurante eram demais para os dois que se desdobravam incessantemente. Visitas ao Brás apenas de quinze em quinze dias. A Rua Guaicurus e suas adjacências (leia-se Faustolo, Clélia, Coriolano, Duílio) eram os limites da vida desta guerreira, mestra nos mistérios do fogão e ímpar nos segredos de ser mãe.

Mas a tarefa era árdua. As quase 17/19 horas diárias de labuta impuseram seu veredicto, e em 1957, esgotados, migram novamente, para outra atividade e outro lugar. Do restaurante à mercearia; da Rua Guaicurus na Lapa para a Rua Groenlândia no Jardim América, limites do Jardim Paulistano e Jardim Europa.

Um ritmo um pouco mais suave, porém ainda extenso de segunda a sábado. Dos quitutes e petiscos da Lapa para as sardinhas fritas, os bolinhos de carne, além do auxílio intenso no balcão da mercearia. Fora isso, a alimentação da família, a roupa lavada e passada e as broncas que toda mãe amorosa costuma dar. Neste cenário passou-se um pouco mais de tempo. Exatos 21 anos.

A pacata Groenlândia se transformava e produzia seus ferimentos. O ritmo era intenso e tantos outros fatores os levaram a abandonar tudo. E tudo acabou.

Hoje, cultivando a memória do companheiro que se foi há algum tempo atrás, a guerreira descansa. Com a mesma vaidade de sempre, cabelos penteados, roupas combinando, sapato de salto, sempre solícita e amorosa, não obstante muitas vezes confundir o nome do filho com o do neto, do marido com o do genro, e assim por diante.

Desses vividos 87 anos eu seguramente compreendi uns sessenta, mais ou menos. Tantas vezes comparei com as mães dos meus amigos e a via um pouco mais sofrida, mas em nenhum instante eu pude ouvir um lamento ou desencanto pela vida que teve.

Por sua voz aprendi quase tudo; pela sua mão fui levado a tantos lugares desta cidade e por sua vida, partilhada, compartilhada, doada, entendi que um dia (tal como disse o poeta), inexoravelmente, vou sentir sua falta, sentir falta do seu abraço, e com isso, sentir um pouco de frio, como só um filho pode sentir.

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