Vila Zelina de cabelos loiros e olhos azuis

Em São Paulo chegaram mais de 2,5 milhões de imigrantes, compondo um mosaico de mais de 70 nacionalidades. 80% dos imigrantes se estabeleceram em São Paulo entre 1827 e 1939.

Os imigrantes lituanos, russos, dentre tantas nacionalidades, deixaram suas terras natal diante das mazelas provocadas pela 1a. Guerra Mundial e também pela revolução bolchevique de 1917, na Rússia, que se espalhou por todo leste europeu.

E assim, partiram em busca de realização do sonho de melhores condições de vida e trazendo no coração esperança de dias melhores para suas famílias.

Diziam que no Brasil "o dinheiro dava em árvores como se fossem frutos", e assim, na esperança de encontrar o que não conseguiam nos seus países, lançaram-se ao mar em navios precários que levavam mais de 40 dias para chegar à terra sonhada. Nessa viagem muitas crianças não sobreviveram à travessia e morreram, sendo sepultadas no mar.

Aqui chegando, no porto de Santos, subiram a Serra do Mar pela estrada de ferro Santos-Jundiaí, hospedando-se na hospedagem da imigrante da Mooca. O plano adotado para o loteamento foi o de uma espinha de peixe, sendo a Avenida Zelina a espinha de onde partiam as travessas em ângulo de 45o. graus, com o objetivo de diminuir as rampas das ruas. A praça passou a ter um pólo de irradiação, onde foi construída a Igreja, em cinco lotes doados pela Soc. de Terrenos V. Zelina.

Assim, na década de 20 do século XX, vieram os imigrantes lituanos e russos que compraram os terrenos e construíram suas casas no loteamento; instalaram comércios – vendas de secos e molhados, lojas, padaria onde faziam o famoso pão preto, uma contribuição desses povos para a gastronomia paulistana.

Os lituanos construíram a Igreja católica no largo de V. Zelina, e os russos a Igreja ortodoxa Vila Bela e também a Igreja Boas Novas foi edificada. Vila Zelina não tinha nenhuma infraestrutura, apenas energia elétrica; ruas de terra batida, sem água encanada e rede de esgotos.

Então, os imigrantes que se estabeleceram na V. Zelina, descobriram que o decantado paraíso que ouviram falar não era verdade… precisava ser construído o sonho.

Diante dessa realidade, com tenacidade, resolveram abrir trilhas nunca antes percorridas, e esse era o desafio que exigiu deles muita perseverança, coragem, voltadas para enfrentar as tarefas da união entre os homens. Tarefas que exigiam o emprego do pensamento e do talento, sobretudo de toda a mente e todo o coração humano.

Aos olhos dos imigrantes, Vila Zelina era cheia de encantos e magia… Diria que aqui, neste solo sagrado, a esperança aportou, fincou raízes, sua semente germinou, a árvore da esperança floresceu, seus frutos fartaram aqueles que acreditavam num futuro melhor, à sua sombra dessa árvore frondosa que é Vila Zelina… Aqui muitos tiveram alegrias, sofrimentos foram aplacados e muitos construíram anonimamente a grandeza deste bairro, cujos campos altos, antes dos tupi-guaranis; dos bandeirantes; depois dos imigrantes lituanos, russos, italianos, portugueses, espanhóis, alemães, japoneses, libaneses, judeus, sírios e tantas outras nacionalidades que, seduzidos pela efervescência do trabalho, construíram rapidamente a maior cidade abaixo da linha do equador, construídas por diversas etnias, por diversas raças por diversos povos.

Diz o escritor Otávio Paz que: "A memória é a mais alta forma de imaginação humana, e não, tão somente, a capacidade de recordar. Se a memória se dissolve, o homem se dissolve."

Assim, esta festa de aniversário do bairro da Vila Zelina é uma maneira de fortalecimento da memória dos antepassados, que lutaram com bravura dentro das precárias condições humanas, que lhes foi oferecido pelo Criador aos imigrantes, e para que os jovens tenham referência da grandeza daqueles que ajudaram a construir um bairro como Vila Zelina.

Essa vila, esse povoado, esse bairro de Vila Zelina, essa gigantesca cidade de São Paulo, é uma demonstração da vitória do espírito humano.

Viva… Vila Zelina e sua gente.

Texto elaborado com as memórias ouvidas durante as reuniões da comissão organizadora da Festa de Vila Zelina, por Antônio Viotto Netto, filho do bairro.

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