Nas décadas de 20, 30, 40, 50, 60 (do século XX, evidentemente) e até nos dias de hoje, não com muita frequência, no Braz os meios de comunicação eram os orais, de vizinho pra vizinho.
Os meios de identificação, antecipado por séculos sobre o RG e o CIC, eram os apelidos no seio da comunidade baresa do Braz (oriundos de Polignano à Mare, província de Bari, região da Púglia, Itália). Todo membro da comunidade tinha seu apelido, gostasse ou não, essa era a identificação. Quem os batizava? Ninguém sabia.
Bastava ser possuidor de alguma distorção do normal, física, visual, mental, comportamental, trajes etc., o apelido surgia como por encanto.
Tinha-mos o "tsup" (aleijado), "nheure" (escuro), "miri'n bacce" (vinho no rosto, mancha violácea), "u corneut" (cornudo, esse era perigoso…), "pezza'n gueug" (remendo na bunda), "uchiu piccet" (olho mijado), "manja, quec i ligi" (come, caga e lê) etc.
Havia um peixeiro, que trabalhava no Mercado Municipal, da Cantareira, cujo apelido era "murt'e suone" (morto de sono). Toda manhã ia pro mercado, bem cedo, pra se abastecer e iniciar sua rotina diária, na venda do pescado, com os balaios presos em cada ponta de um bambu de grosso calibre. Pra isso, andava da Rua Benjamim de Oliveira, atravessava o rio Tamanduateí por uma ponte, que não existe mais, defronte onde hoje se localiza o famigerado ed. São Vito, o "treme-treme". Contam as línguas ferinas que ele, o Nicola (esse era o seu nome), saía de casa com os balaios vazios, dormindo, bem familiarizado com o trajeto, abrindo os olhos só quando chegava ao mercado.
Um dia, bem cedinho, iniciando seu trajeto, caminha em direção ao mercado, driblando ruas, calçadas, guias, postes etc. bem equilibrado, chega até a roncar. Mas, quando foi atravessar a ponte, chegando lá, seu "radar" natural deve ter sido atraído por algum "pólo" de atração distorcida e guiou-o direto pra dentro do rio. Acordou com os pés dentro d'água. Naquela época o rio não era limpo, o fundo quase chegava à superfície, permitindo atravessá-lo a pé.
Nunca mais dormiu andando, proeza insuperável… cochilava um pouco até estar bem próximo da ponte, acordava de imediato… As más línguas diziam que ele sofria de insônia… quando andava, falava sozinho, devia estar sonhando com Polignano.
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