Ele tinha razão

Por favor, me dêem licença de falar de uma homem que mesmo tendo convivido pouco comigo, me ensinou muito. O meu avô Júlio. Não era paulista e nem se quer morava em São Paulo, mas adorava esta cidade, era fascinado pela pujança dela, como ele mesmo dizia. E assim sempre que podia vinha nos visitar e ficava ou na minha casa, ou na casa do meu tio, lá na Parada Inglesa, onde moravam todos os parentes dele que viviam aqui em São Paulo.

 

Muito bem, um pouco antes dele morrer, por volta de 1971, ele estava aqui em São Paulo, mas hospedado na casa do meu tio, e em uma bela tarde ele foi lá em casa para nos ver. Ao entrar na sala, encontrou-me com um livro. Eu estava lendo "O Germinal" de Emile Zola, um ótimo livro (quem não leu, leia que não vai se arrepender; embora, tenha de confessar, que naquele dia em particular, só o estava fazendo por conta de deveres escolares).

 

Ao me ver com o livro, ele quis saber o que eu estava lendo e ao saber disse que aquele livro era muito bom, me contou que conhecia outros autores franceses, e começou a falar sobre Flaubert, Danton, Molliere, Robespierre e dai foi. Da França pulou para a Inglaterra, Holanda, Itália e do realismo, foi para o romantismo, para os clássicos gregos e romanos, acabou na literatura de língua portuguesa, passando de Camões a Gil Vicente, de Fernando Pessoa a Antero de Quental, de Machado de Assis a Castro Alves e outros e outros. E eu ali, boquiaberto. Não conhecia esta façanha dele, jamais pensei que ele tivesse uma cultura literária tão grande. Eu percebia pela firmeza com que ele falava que ele sabia muito sobre tudo aquilo. Até que depois de um tempo ele disse:

 

– “Bem filho, agora o vô vai deixar você com sua leitura, e continue sempre assim, se ‘aculture’ o máximo que puder, nunca se contente com só um pouco de conhecimento, vá cada vez mais fundo e fuja da mediocridade e dos modismos, porque, ao contrário do que dizem por ai, em terra de cego quem tem um olho não é rei não, acaba é ficando cego também, porque convive com tanta mediocridade, que logo, logo, não enxerga mais um palmo a frente do nariz”.

 

Na época eu confesso que não entendi muito a mensagem dele, mas hoje, com os cabelos já tingidos pelo tempo, vejo que ele tinha razão. Basta ver os programas das televisões, as músicas que tocam nas rádios, as revistas que “pululam” nas bancas, para ver como tem cego de um olho só neste mundão de meu Deus.