O Largo do Arouche

Em meados da década de 70,
o Largo do Arouche contava com várias bancas de flores.
Bem simples, montadas em suportes de madeira
e protegidas do Sol e chuva com toldos plásticos.
 
Muitas variedades de plantas coloridas e perfumadas.
Sem dúvida, tentadoras para um presente.
O lugar era movimentado, com gente apressada,
ou despreocupada, além de figuras estranhas ou engraçadas.
 
Ao redor, prédios antigos
serviam de moradias e escritórios.
 
Vários restaurantes famosos, muito comércio e bancos.
Recentemente, aguardando um ônibus,
notei um pequeno parque,
com alguns equipamentos para exercício,
com gente vagando nesse meio, feito moribundo.
 
Assusta observar a quantidade de pessoas,
em idade produtiva, fazendo parte da paisagem,
como natureza morta.
Parecem alienados, talvez sem trabalho,
maltrapilho, simplesmente marginalizados,
caso sério, nada engraçado!
 
São guardiões ao avesso,
que se apropriam de qualquer jeito,
do espaço e do pedaço,
com seus poucos trapos, papelão na mão,
vício qualquer, uma bituca
e um cachorro, numa eterna cumplicidade.
 
Gera muitos sentimentos, insegurança, necessidades e desordem.
Situação complexa que deixa qualquer um perplexo;
difícil alguma convivência saudável. Como pode?
Há pessoas à margem de tudo,
e outras com poder para tudo.
 
Das janelas aprisionados nas moradias, nas suas fantasias,
alguns sem tempo para apreciar o dia,
ou refém, dentro de um veículo, no trânsito parado.
As flores de hoje, nem se destacam mais nesse cenário
descolorido dessa grande cidade.