El Gordo, Don Pedregullo, un caminhon de macacos e o espanhol Pepe

El Gordo cruzou os caminhos do espanhol Pepe (José Conegero Lopes) em Málaga, Espanha, no ano de 1889, por uma decisão da mulher Ana. Esta saíra para comprar "unas sardinas" para fritar no almoço, mas, convencida por um grupo de vizinhos, com o dinheiro, entrou no bolão do "El Gordo de Navidad", loteria que corre na Espanha, todos os anos, no dia 22 de dezembro.

Assim, naquele dia, naquele longínquo ano, o espanhol Pepe comeu "tortillas" de batatas, mas acertaram "El Gordo de Navidad" bem na cabeça. Eram muitos malaguenhos e, dividido e repartido o prêmio, Pepe pode dar o pontapé inicial de um sonho acalentado por muitos europeus: fazer as Américas.

As passagens dele, da mulher e dos seis filhos, a maior Carmem, com 14 anos, e mais o percurso do navio Itália, que em 1902 os deixou em Santos até a Hospedaria dos Imigrantes, em São Paulo, onde foram registrados, e depois o terreno e a casa alugada, tudo foi patrocinado por El Gordo.

Faltava construir a casa e, para tanto, arrumar emprego na cidade, em uma obra em que nesta o espanhol sabia fazer um pouco de tudo.

Foi, então, que um outro cruzou seu destino. Foi Don Pedregullo, porque na primeira empreitada que conseguiu vaga havia uma condição: "aqui só poderemos admitir o senhor e começar a obra quando chegar o Pedregulho".

Vieram noites e noites de insônia e dias e dias de apreensão. Sempre voltando com a mesma resposta: lamentamos, mas "o Pedregulho ainda não chegou."

– "Quién será este Don Pedregullo?"

O espanhol Pepe e a mulher Ana acreditavam ser alguém muito importante, tanto que após idas e vindas já o chamavam de Don Pedregullo, e era quem autorizava as obras aqui em São Paulo. Procurar outra obra nem pensar, porque se não chegava nesta não chegaria em nenhuma outra da cidade.

Isto ele a mulher e os filhos deduziram durante os almoços e jantares, preocupados porque o dinheiro ia sendo gasto e ainda pretendiam construir a casa no terreno comprado.

Dias e dias se passando e nada de Don Pedregullo aparecer. Aparecia sim o espanhol, cansado, desanimado, de volta, isto até certa manhã, quando, ao chegar na obra, recebeu uma proposta. "Temos um trabalhinho para amanhã. É que precisamos sair para tentar saber por que o Pedregulho não chega e fomos avisados de que chegará na parte da manhã o caminhão de Macacos. Precisamos de alguém para recebê-lo, conferir a quantidade e assinar a nota de serviço. Depois é só colocar os macacos dentro do depósito e aguardar nossa chegada. Chegaremos ao cair da tarde".

Assustada, Ana achava que seria melhor voltar e retirar a palavra dada, porque un caminhão de macacos é um perigo, e para quê os macacos? Não, alguma coisa não estava certa…

Mas espanhol não retira palavra dada.

Manhã seguinte lá estava ele, junto ao depósito, esperando a chegada dos macacos.

– "Cuantos serón de macacos?" – preocupava-se assustado também ele.

Tinha bolado um plano. Quando chegasse o caminhão de macacos, subiria no muro e tiraria a cinta e acuaria os macacos em um canto e, lá do alto, tomaria conta para nenhum escapar.

Passou a manhã, depois o meio do dia e a tarde começou a cair lentamente.

Faminto, despenteado, suado, porque ajudara a descarregar dois caminhões que chegaram, um após o outro. Um cheio de pedras grandes, para calçamento de ruas, e no outro pequenas pedrinhas que descarregaram no depósito, deixando-o mais temeroso ainda, porque sobrou pouco terreno para os macacos e mais uma preocupação: e se atirassem pedras e se subissem nas pedras grandes e se fugissem ou se machucassem?

Respirou aliviado só quando o pessoal apareceu de volta, sorrisos largos, felizes.

– O senhor deu sorte, seu Pepe! Amanhã mesmo vamos começar e o senhor já está contratado. Agora é nosso convidado, vamos sair para comemorar!

– "Y Don Pedregullo, y el caminhon de macacos?" – Ana quis saber assim que o viu entrar todo alegre, vermelho, meio tocado, "bebió unos tragos"…

– "Son piedras, Ana! Acá en San Pablo piedras grandes são macacos e las pequenãs se llaman pedregullos!".

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