E o pau comeu…

Todo mundo tem sua história de churrascaria. Menos eu. Não sou carnívoro fanático, então, não foram muitas as churrascarias que frequentei. E ainda assim, fiquei mais nas preliminares do que no vale tudo, o famoso "pinga-sangue". Então o que vou contar sucedeu a um amigo, e seu fiel clã de comparsas. Este pessoal, churrasqueiro de carteirinha, tinha seus lugares favoritos. Por um cozinheiro conhecido, mestre na faca e na brasa, saltavam de um lado a outro da cidade. Sim, pois o Cuca mudava sempre de lugar. Moema, Móoca, Jabaquara… enfim, seguiam o rastro de sangue até onde chegasse. Nesta vez, o rastro, e o mestre churrasqueiro, sempre o mesmo, estavam temporariamente sediados no "Cardápio de Ouro", na Vila Mariana. Um sobrinho de um dos amigos estava voltando da Europa, onde fizera um curso de especialização musical. Lá foi a turma para a churrascaria, para comemorar. O moço, flautista de fino trato, levou seu instrumento, e, no ardor das celebrações, passou a interpretar uma peça. Seria a Flauta Mágica, de Mozart? Se era, o efeito foi contrário. Talvez até fizesse sucesso no Fasano, ou no Cá D′Oro, mas ali, naquela churrascaria, perdida numa obscura rua de Vila Mariana, a deshoras, começou a incomodar os pitecantrópicos habitués, já bem baleados por muito chope e cachaça. Não tardaram protestos, primeiro resmungos, de uma lotada mesa vizinha, pois afinal haviam mulheres, nos dois grupos. Os murmúrios cresceram, viraram rugidos de ódio e finalmente berros e vaias. Meu amigo Tom ainda tentou, com bons modos, explicar-lhes a comemoração, mas nada adiantou. Foi recebido com com palavrões. Apesar de franzino, não se conteve e deu uma bofetada no primeiro do truculento grupo. Aí o mundo desabou: socos, pontapés, bofetadas, e também as mulheres participavam da pancadaria. Um dos adversários correu para o balcão, para apanhar um facão, mas outro de meus amigos acertou-o com uma cadeirada nas costas. Puro "saloon" de bang-bang! Como alguns do pessoal de Tom eram grandes, fortes e também briguentos, sua turma estava levando a melhor, quando chegou a polícia: -Tejem presos Todo mundo para a delegacia, que era bem perto. O que explicava outra coisa: o violento grupo da mesa vizinha era formado quase todo de policiais! O que se seguiu foi um longo e penoso processo, no qual os dois grupos alegavam agressão. A turma do Tom, bem assessorada, defendeu-se bem, e depois de demorada e árdua peleja, acabou dando empate. Isto, um ano depois. Fez-se um acordo, e entre mortos e feridos salvaram-se todos. Tempos mais tarde, tendo eu rememorado o episódio, Tom declarou: -Ah, se arrependimento matasse! Pois é, assim caminha a humanidade.