A nossa turma tinha uma programação deveras interessante. Segunda feira jogava bilhar no bar do Valdemar, Rua Casa do Ator esquina da Rua Ribeirão Claro (Vila Olímpia). Terça era dia de minar (namorar). Quarta ir ao Pacaembu. Quinta namorar. Isso quem tinha namorada. Eu com meus 19 anos, não tinha. Não gostava de namorar. Gostava de andar com mulheres de preferência mais velhas do que eu (sabiam das coisas). Sexta era dia de bebericar e depois pegar mulher (paquerar), sábado era dia de festas americanas. Bailinhos. O chamado mela cueca. As moças levavam os comes e nós os bebes. Muita Coca Cola, Crusch e Rum Merino. O Chamado Cuba Livre, e Hi-Fi. Desses bailinhos o que mais se dançava eram boleros. Dois pra lá dois pra cá. Era o mais fácil, mesmo por que dançar não era nosso metier. O papo era pegar mulher. Aos domingos o programa era cinema. Sessão das 20 horas. O cine Radar, Avenida Santo Amaro, era o cinema que a gente mais gostava. Tinha 1444 lugares. Depois da última fileira de poltronas, tinha um muro de um metro e pouco de altura, que era ideal para namorar no escurinho do cinema. Ali saía cada coisa que o farolete do lanterninha mostrava, que sai de baixo. Mas no domingo era dia de ficar no meio só para zoar. O cinema lotava aos domingos nesta sessão. Um dia passava o filme Massister na terra dos fortes. A coisa estava degringolando. Massister fazia miséria. Um filme da mitologia grega, que tinha luta livre que era uma luta moderna. A coisa começou por ai. Quando os bandidos estavam no desfiladeiro para pegá-lo, Massister pegou uma pedra de granito de dois metro de comprimento, por um de largura, e grossura de 15 cm sozinho e jogou para baixo interrompendo a passagem dos bandidos. O cinema veio abaixo. Não havia Cristo que fazia a gente parar de gritar. Acenderam se as luzes mais de 30 guardas civis vieram para por ordem na casa. Na volta do cinema, tinha mais uma seção de baile, ai já com namorados e algumas pitchurras. Dali saía muitos casórios. Alguns sem a benção do padre, mas com a do delegado. Vai casar ou não seu sem vergonha. Como pode desonrar uma moça de família! Nessa época fazíamos parte de comunidade católica, da igreja do Divino Salvador (Rua Casa do Ator). Nos éramos congregados Marianos, e as moças, Filhas de Maria. Que também eram chamadas de filhas daquela. Segundo as línguas até os cachorros comiam, sem contar que o padre também andava bastante assanhado com elas. Na verdade os rapazes estavam naquela de congregado, mais por causa do futebol, que tinha a congregação. Já que a maioria jogava no Flamenguinho da Vila. Então se juntava o útil, ao agradável. Pelo menos, as mães sabiam que estávamos nas mãos de Deus. Mal sabiam elas! Mas para poder jogar bola na congregação tinha que participar das reuniões, fazer tarefas na igreja. Nosso instrutor seu Armando, era um católico convicto. No meu modo de ver, era mais responsável com Deus, do que o próprio padre. Não gostava quando a gente dizia que a maçã que Eva comeu, era cascata. Jurava por todos os juros, que era a pura verdade. Dizia que a gente tinha que viver uma vida santificada e que não devíamos olhar as moças pelo lado sexual. Contou sua desventura com a noiva. Ela queria que ele fizesse algo de luxuria (abraços, beijos e amasso) durante o namoro e ele achava que só devia fazer depois do casamento. Como ela insistia e o chamou de algo que não gostou, preferiu acabar com noivado. Com respeito às tarefas, na missa eu colocava e tirava o microfone na hora do sermão. Outro acendia as velas. Outro pegava o coador vermelho e ia catar o dinheiro que a turma oferecia a igreja, aquela velha esmola que os padres mais queriam. Um dia eu fui escalado para passar o pires. Digo o coador. Na missa do domingo as 8 da matina. Tinha vários amigos que jogavam bola comigo no Flamengo e me chamavam de puxa saco do padre Jeremias. Por falar nele, tenho saudades. Era muito folclórico. Naquela época, padre usava batina. Ao lado da igreja tinha o bar do Vieirinha também congregado Mariano. Ele já era fita larga. Eu ainda era fita média, já tinha saído da fita estreita. Era uma fita azul com uma medalha de prata (fajuta). Jerê, como agente o chamava, sentava no bar do Vieirinha e mandava ver uns bons goles de Rabo de Galo. (Pinga com Cinzano). Um dia falei para ele mudar e começar a tomar CIN-CIN (Cinar com Cinzano). Dizia-se que era afrodisíaco, levantava a moral. O padre foi visto dali para frente só tomando Cin – Cin. Quando eu entrava no bar o Vieirinha só de pensar começava a rir. Nosso trabalho só era muito na igreja quando era sexta Feira Santa, ai era soda. Começava na Quinta, com o lava pés. Tinha que apagar as luzes da igreja, para acender aquela vela de um metro de altura e bem gorda na circunferência. Tinha que prestar atenção para acender a luz na hora certa. Enchia o saco aquele negócio. Tinha que se fazer à coisa certa, porque tinham muitos fanáticos na igreja. Ali era reduto de Portugueses geralmente mais fanáticos em religião, do que corinthianos em futebol.
Já na Sexta Feira, o caixote com Deus morto, ficava na sacristia. O povão ia o dia inteiro dar uma olhada e espalhar o sinal da cruz pelo corpo. Ao lado do caixão uma cesta de vime para se colocar a grana. E como rendia aquele dia. As 19h30 tinha a procissão, era uma briga para ajudar a carregar o caixão durante a caminhada. Ô meu, agora sou eu! A procissão, saia da Rua Casa do Ator, entrava na Rua Nova cidade, um pouco da Quatá, depois a Baluarte, Gomes de Carvalho, Ribeirão Claro e Novamente a Rua Casa do Ator. Em varias esquinas dona Emilia, fazia às vezes da Verônica, dando uns agudos e desenrolando um pano com a efígie de Jesus com a coroa de espinhos sangrando. Gostava de ver aquilo. Era eu que empunhava o microfone (como cansava o braço) para que os passantes da procissão ouvissem. Depois, ela caminhava, e o povão ia cantando: Queremos Deus, homens ingratos, e por ai a fora. Muitos contando piadas, mexendo com moças, e casais de namorados agarradinhos. Chegando ao pátio da igreja aquele velho e surrado discurso, que Jesus isso e mais aquilo, e ai todos iam pra suas casas felizes da vida por mais um dia de "sacrifícios".
Ai chegava à hora de mais trabalho para a gente, pobres congregados. Tinha que colocar tudo para dentro, fechar a igreja. E depois ir à sacristia contar o dinheiro arrecadado durante o dia. A última vez que fiz isso foi em 1961. NÃO FOI LEGAL. Mas só me dei conta disso depois que estava indo para casa. Porque antes até que foi legal. Na hora de contar o dinheiro Padre Jeremias me chamou me deu dinheiro e disse: Vai ao bar do Valdemar, compra meia dúzia de cervejas. E aí eu o, padre e mais alguns estávamos na Doce Vitta. Contando dinheiro e mandado Brahma goela abaixo. Confesso que fiquei injuriado por muitos anos. Aquilo não saia da minha cabeça. Também nunca mais fui à igreja.