Desmemórias

Sou neto de italianos (dos quais herdei o sobrenome) e espanhóis que moravam no Brás (É… existiam muitos por lá), onde passei boa parte da minha infância ouvindo o idioma espanhol, mais precisamente na Rua Monsenhor de Andrade.

Do terraço da casa de 3 andares do "abuelo", eu atirava com minha espingardinha de chumbinho (comprada na Casa de Caça e Pesca Diana, ali na esquina mesmo) nos vidros da igreja (cujo padre era amigo do meu avô e eu só descobri isso após levar muita ripada na poupança), onde tinham vários ninhos de pombas (naquela época existiam em grande quantidade, hoje nem tanto).

Pela sacada do sobrado eu via passar a procissão da Igreja São José, que distribuía pãezinhos abençoados pelo padre, em frente ao grupo escolar onde minha mãe estudou (Pugliese) e seu professor de português era o senhor Janio Quadros, segundo ela me contava, um dos poucos que possuía carro naquela época (só os ricos tinham) e era extremamente exigente.

"Mi abuelo" era dono de um comércio de louças que atravessava o quarteirão da Rua Monsenhor à Rua Jairo Goes (não gostava muito da pizza do Castelões, hoje aperfeiçoada para massa fina), de onde em meio a engradados de madeira para transportar as louças eu e meus primos brincávamos de lançamento de granada com os bibelôs e pratos de porcelana (com suas consequências) e volta e meia sobrava no chão uma pilha de cacos dos que ficavam empilhados para a venda, pois naquela época nossas pernas corriam mais do que nossas vontades.

Ele passava pelas porteiras (lembram-se da história do vendedor de leite de cabra que amarrou os animais na cancela e não notou quando ela levantou e os coitados ficaram pendurados – essa história era clássica nas imediações) em direção a loja de calçados Clark onde comprava um Vulcabrás e nos fins de semana ia a pé em direção ao Largo da Concórdia para fazer a feira.

No Largo havia uma família de italianos com cara de mafiosos que tinham um restaurante que fazia uma massa caseira lendária, onde eu lembro vivamente o avô da “famiglia” sentado em frente à caixa registradora. No entanto o teatro já havia sumido, pois fora sucumbido pelo fogo.

Lembro-me do som do apito das fábricas, do cheiro de orégano e das sacarias da Rua Ricardo Pinto, a "vilinha" (Rua da Conceição) na travessa da Rua do Gasômetro onde as pessoas colocavam as cadeiras na porta para fofocar, e onde faziam quermesse com fogueiras e bolos feitos pelos moradores, mas que no final dos tempos "só tinha maloqueiro". O local era próximo da Companhia de Gás onde as mães mais aflitas levavam suas crianças para respirar aquele odor que, segundo os ensinamentos da época, era bom para bronquite (na minha época acredito que ninguém mais fazia isso).

Também me recordo do Cine Piratininga e do Cine Universo (que abria o teto quando não havia possibilidade de chover), a garagem dos bondes na Avenida Celso Garcia, a cantina (restaurante tinha esse nome) Balilla com a placa na frente dizendo "é proibido cantar" e cujo significado só fui saber depois dos 50 anos.

Fui expulso pelo vendedor da Loja Pirani (o mesmo não sabia que eu estava com o bolso cheio de dinheiro para comprar alguns carrinhos de autorama bem caros) devido a minha aparência de menor abandonado naquele dia, talvez um pouco sujo e de chinelos, com a camisa de colarinho e mangas curta para fora da calça (aí os limites regionais podem ser ultrapassados, pois nas memórias tudo era o Brás).

Não esqueço também do Parque Dom Pedro, onde nasci… Da Rua Monteiro que vendia tecidos para ternos e vestidos, do Henrique que era o alfaiate do prédio que ficava ao lado, da famosíssima Gafieira que ficava no fim da rua Piratininga na qual eu percorria para pedir aos vendedores de ferro velho (sim também fui enxotado por um ou dois; naquela rua havia muitos deles) umas rolimãs para fazer carrinhos (que minha mãe quebrava ou sumia com eles), das lojas de curtume e das madeireiras que existem até hoje

A garoa não existe mais – o inverno era uma estação mais caracterizada, bem definida, hoje são só frentes frias.

Lembro também do baiano que tinha peixeira e era muito perigoso (lembram-se da música que Adoniram Barbosa cantava com a Elis Regina?), do sotaque italiano e tantos outros que nem eu nem ninguém possui mais (ressalva merecida para o Adoniram que foi um dos poucos que deixou um registro fonográfico) do bar Ouro Fino (quem sabe, sabe) e do barbeiro ao lado da igreja, e de tantas outras coisas que ficaram registradas na memória, melhor dizendo, nas desmemórias (não existe outra palavra conforme deixou
apropriadamente registrado um famoso escritor da região).

Com o passar do tempo as impressões vão se apagando "e somente os dotados de um espírito altivo são capazes de escrever livros sobre o assunto" e que, francamente, exceto por historiadores e moradores locais, não tem interesse para grande maioria dos leitores.

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