Sou carioca,
Mas
Estou cansado
De tanto boboca
Metido a malandro,
De tanto canalha
Travestido de santo,
De tanta trampa e bandalha,
Estou cansado
De ter que encarar
Tanto meandro e atalho
Pra ir de casa ao trabalho
Sem cair na mão do bandido,
Sem fazer escala em cova rasa,
Afinal,
Não sou à prova de bala,
Vou pra Sampa,
Pessoal,
E vou ficar numa boa
Andando a pé por lá,
Indo e vindo
À pampa e ao léu,
E subindo e descendo
E correndo da garoa
E caprichando no pedido:
"Um chopes e dois pastel, meu!",
E caprichando até
Ficar craque no sotaque:
"Um chopes e dois pastel, meu!";
Depois,
Com olhos de cifrão,
Vou contar o tutu
Que pela Paulista
Aos molhos transita,
Mas,
Sem perder de vista
A menina bonita
Que agita a São João,
E meu itinerário vai ter
Seminário e Quintino Bocaiúva
Que me cai como uma luva
Um fino Panamá
Da Ópera, da El Sombrero,
Da Paulista e d'A Esquina,
E da Paissandu lá no Paissandu
E com direito
A bauru no Ponto Chic,
Pelo jeito,
Vou andar muito por ali
Enquanto não ficar pronto,
E vou ter pique
Pra saborear o Bixiga
E vou sair de lá
Com o rei na barriga,
Quer dizer,
Com a rainha da cozinha!,
E vou comer
Sushi e sashimi na Liberdade,
E usando o hashi
Que aqui nunca usei,
E vou degustar
O filet do Moraes
Na Júlio Mesquita,
Orgulho da cidade,
E vou cantarolando
Canção do Adoniran
De quem sou fã,
E fã incondicional,
E vou fazer a digestão
Cruzando a Consolação
De cima a baixo,
E vou respirar
O clima sensacional do Brás,
Agora,
Bicho,
Quando bater
Aquela saudade louca
Na hora de sossegar o facho,
Vou matar a saudade na Boca do Lixo!
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