Durante muitos anos, morei em dezenas de pensões. Ora perdidas em distantes bairros, ora em antigas e históricas ruas próximas ao centro. Aquelas vetustas mansões, remanescentes da decadente aristocracia cafeeira, tiveram importante papel em minha vida.
Baronesa de Itu, Cândido Espinheira, Conselheiro Brotero, Monte Alegre, Veiga Filho, Alameda Glete, Conselheiro Nébias, Dona Veridiana, Helvetia, etc., foram alguns de meus endereços durante os longos doze anos em que resisti ao casamento. Nomes majestosos, solenes, bucólicos às vezes, seguramente de pessoas importantes, respeitáveis, que tiveram a glória de serem nomes de vias, logradouros ou avenidas na maior cidade do país.
Quem foram essas pessoas, caro Modesto? E você, prezada Doris Day, que já nos deu uma esclarecedora matéria sobre Dona Veridiana, por que Glete, Helvetia, etc.? Recorro ao Chammas, à Vera Morata, ao Clesio, ao Saidenberg, ao Chiappetta, à Cleidiner e a outros amigos do São Paulo Minha Cidade, que tanto peregrinaram por essa amada Paulicéia Desvairada, que respondam, por favor, a este pobre, ignaro e desbussolado analfabeto urbano. Qual a origem de Chora Menino, Largo da Misericórdia, Lavapés, Ladeira da Memória, João Cachoeira, Aurora, Bela Cintra e tantas outras denominações impregnadas de lirismo e de poesia?
Mas o que eu queria dizer mesmo, é que as pensões foram para mim uma grande escola. Convivi com músicos, estudantes, jóqueis (só davam "barbadas" frias), professores e, numa delas, havia até bela e atraente dançarina de boate, que despertava desejos e sonhos inconfessáveis neste que "vos fala". Asseguro, todavia, que ela era de uma dignidade exemplar.
Entre os hóspedes, vindos dos mais distantes recantos do país, prevalecia uma saudável, fraterna e sincera camaradagem, e a palavra solidariedade fazia parte de nosso repertório. Com o músico – trombonista -, fui conhecer o local onde ele exercia sua arte, integrando uma admirável orquestra – o Avenida Danças. Ali, na pista, brilhava o ruivo dançarino Ponce de Leon (lembram-se?), bom de bola e bom de samba. Com terno de linho, sapatos de duas cores, ele fazia incríveis coreografias, dignas de um Fred Astaire.
Com o professor, pela primeira vez, fui e adquiri o gosto pela magia do teatro (Moral em Concordata, no Maria Della Costa). Levou-me, também, a conhecer o Clube do Professorado Paulista, onde exercitei minha sofrível arte de dançarino de boleros. Lembra-se, Mário Lopomo? Um garçom paraibano era meu fiel escudeiro nas gerais do Pacaembu, em cujo gramado, Cláudio Cristóvão do Pinho, o "Gerente", dava sempre novas lições de futebol, ao lado de Luisinho, Baltazar, Carbone e Mário. Inesquecível.
A memória me trai e não me lembro, perdoem-me, os nomes de todas aquelas generosas pessoas, parceiras e cúmplices nas rações insípidas e insossas das gororobas diárias. De suas ocupações, em busca da sobrevivência, na cidade imensa, eu pouco sabia, mas, ali, no convívio com os demais moradores, eram pessoas confiáveis, cheias de sonhos e esperanças, em busca de melhores oportunidades. Com eles aprendi lições de lealdade, coragem e simplicidade. Obrigado, amigos!
P.S. Alguns estranham o fato de o ítalo-brasileiro Mancini ser corintiano. Explico. Quando criança, meu pai, tios, primos, padrinhos e até o meu velho nono, pressionavam para que eu fosse "palestrino", como todos eles. Rebelei-me! Entrei no primeiro bazar e adquiri um daqueles espelhinhos redondos de bolso (quem já não teve um desses?), em cujo verso figurava o glorioso alvinegro. Amor para sempre! Foi o meu primeiro e audacioso gesto de independência.
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