Da Janela do Ônibus Elétrico

Eu me lembro muito bem do ônibus elétrico. Grande, azul escuro, imponente, elegante.

Quando pequena, confesso que tinha medo dele. Mas eu subia os degraus com o auxílio da minha mãe, e íamos do Cambuci ao centro da cidade. Lento, quase sem nenhum barulho, ele ia. Ao ser acionado, um pequeno solavanco. Eu achava engraçado: no fusca vermelho do meu pai existiam três pedais e não havia solavanco. No ônibus elétrico, existiam apenas dois. Esse fato aguçava em muito a minha curiosidade.

Eu achava o motorista sempre muito sério. Eu pensava: “Será que, para dirigir um ônibus assim, o homem tem que ser sério?”. O cobrador também não era lá muito dado a sorrisos… Mas andávamos nele uma vez por semana; isto era sagrado!

Ainda me recordo deles na zona leste, enfileirados na Avenida Celso Garcia, não provocando fumaça, ruído. Apenas iam e vinham, levando muita gente. Foi numa das janelas desses ônibus que vi, pela primeira vez, também na zona leste, uma casa com uma tabuleta na porta anunciando o ofício da moradora: "parteira". Eu fiquei confusa com isso: em plena década de 80 e ainda existiam parteiras anunciando seu trabalho com muita tranqüilidade.

Também da janela do ônibus, presenciei faces de São Paulo nem sempre adoráveis. Mas consegui ver também, das mesmas janelas, o anúncio da primavera, sorrindo feliz e esperançosa a quem passava.

E lá dentro consegui perceber solidariedade entre os passageiros. Homens ainda cediam os seus lugares a senhoras, e isso eu achava belo. Não me lembro de ter presenciado ali alguma discussão ou mal-entendido. Muita gente aproveitava e lia. Como eu também, algumas vezes, me deleitei com poemas e livros de humor. Numa das vezes, eu gargalhei ao fazer as minhas leituras. Eram textos de caráter "esotérico", escritos pelo Bussunda. O meu riso solto chamou a atenção, sem que eu quisesse. Fechei o livro, obviamente.

Uma vez consegui chegar com um deles até a Penha e fiz ali um passeio interessantíssimo. Comemos pizza de frango, meu marido e eu, pela primeira vez.

Mas, um dia, voltando da escola para casa, com a minha mãe e irmão, um senhor, sentadinho, no auge da simpatia e que me lembrava Drummond, se ofereceu para segurar o meu material escolar, enquanto eu ia em pé mesmo, me segurando como podia. Quando eu pedi o meu material de volta, agradecendo, ele perguntou: "Ficou de castigo hoje?". Balancei a cabeça negativamente, com muita vergonha. Afinal, eu era comportada e me senti ofendida com a pergunta.

Pergunta possível só dentro de um ônibus elétrico, que tinha uma feição muito cotidiana, um rosto sereno e macio de São Paulo.

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