Não. Não é aquela piada infame que, com certeza, vocês já conhecem. Vou falar de um dos mais destacados paulistanos e orgulho para todos nós. Mário Raul de Moraes Andrade nasceu em 9 de outubro de 1893, na Rua Aurora, 320, Centro da capital. Garoto prodígio escreveu o primeiro poema aos onze anos, cantando com palavras inventadas. Num depoimento a Homero Senna, publicado no livro "República das Letras" ele disse: "Tenho a certeza de que fui escritor desde que concebido. Ou antes… Meu avô materno foi escritor de ficção. Meu pai também. Tenho desconfiança de que refinei a raça. Era danado esse Mário. Foi poeta, ensaísta, escritor, professor de música, colunista em jornais, pesquisador, entre tantas outras atribuições. Em 1922 participou da Semana de Arte Moderna em São Paulo, de 13 a 18 de fevereiro, no Teatro Municipal ao lado de outros grandes intelectuais da época. Nesse mesmo ano publicou "Paulicéia Desvairada", livro de poesias. Quando passava férias em Araraquara, em 1926, escreveu "Macunaíma", um dos maiores clássicos da literatura brasileira. No ano seguinte estreou como romancista, publicando "Amor, verbo intransitivo", que choca a burguesia paulistana com a história de Carlos, um adolescente de família tradicional iniciado nos prazeres do sexo pela sua Fraulein, contratada por seu pai exatamente para essa tarefa. Em 1935 é nomeado Chefe da Divisão de Expansão Cultural e Diretor do Departamento de Cultura que deu origem à Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo. Entre 1938 e 1940 morou no Rio de Janeiro onde atuou como professor-catedrático de Filosofia e História da Arte na Universidade do Distrito Federal, além de colaborar no Diário de Notícias daquela cidade. Em 1941 volta a morar em São Paulo, à Rua Lopes Chaves, 546. No ano seguinte é um dos sócios-fundadores da Sociedade dos Escritores Brasileiros. Colabora no Diário de S. Paulo e na Folha. Também publica "Pequena História da Música". Coberto de reconhecimento pelo papel de vanguarda que desempenhou em três décadas, Mário de Andrade morreu em São Paulo, em 25 de fevereiro de 1945, vitimado por um enfarte do miocárdio, em sua casa. Está enterrado no Cemitério da Consolação. Um capítulo à parte em sua produção literária sem fronteiras é constituído por suas correspondências. Uma quantia volumosa e cheia de interesse, ininterruptamente mantida com colegas como Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Oswald de Andrade, Tarsila do Amaral, Fernando Sabino, Augusto Meyer e outros. Suas cartas conservaram, de regra, a mesma prosa saborosa de suas criações com palavras – um lirismo que, como ele disse, "nascido no subconsciente, acrisolado num pensamento claro ou confuso, cria frases que são versos inteiros, sem prejuízo de medir tantas sílabas, com acentuação determinada".
E então? Conhece o Mário?
INSPIRAÇÃO – MÁRIO DE ANDRADE
São Paulo! Comoção de minha vida….
Os meus amores são flores feitas de original!…
Arlequinal!… Trajes de losangos… Cinza e ouro…
Luz e bruma… Forno e inverno morno…
Elegâncias sutis sem escândalos, sem ciúmes…
Perfumes de Paris… Arys!
Bofetadas líricas no Trianon… Algodoal!…
São Paulo! Comoção da minha vida…
Galicismo a berar nos desertos da América.
PAISAGEM – MÁRIO DE ANDRADE
Minha Londres das neblinas finas…
Pleno verão. Os dez milhões de rosas paulistanas.
Há neves de perfume no ar.
Faz frio, muito frio…
E a ironia das pernas das costureirinhas
Parecidas com bailarinas…
O vento é como uma navalha
Nas mãos dum espanhol. Arlequinal…
Há duas horas queimou o sol.
Daqui a duas horas queima sol.
Passa um São Bobo, cantando, sob os plátanos,
Um tralalá… A guarda-cívica! Prisão!
Necessidade a prisão
Para que haja civilização?
Meu coração sente-se muito triste…
Enquanto o cinzento das ruas arrepiadas
Dialoga um lamento com o vento…
Meu coração sente-se muito alegre!
Este friozinho arrebitado
Dá uma vontade de sorrir!
E sigo. E vou sentindo,
À inquieta alacridade da invernia,
Como um gosto de lágrimas na boca