Com a cabeça nas estrelas

Por volta de outubro de 1961, tinha uma predileção por um presente ganhado em meu aniversário que ocupava grande parte de meu dia, um caleidoscópio. Viajava e sonhava naqueles desenhos formados no tubo mágico. Parecia uma viagem às estrelas. Meu colégio indicou a compra naquele ano de um Atlas Geográfico Universal para complementar as aulas de geografia; o tesouro foi descoberto nas páginas finais do volume, algumas páginas contendo fotos, desenhos, gráficos sobre Astronomia. Fiquei fascinado com o material, uma vez que já tinha ouvido falar da nave russa Sputnik, lançada em outubro de 1957, além da Sputnik II que viajou um mês depois.

A nave número dois foi mais importante, pois levou o primeiro ser vivo a orbitar a Terra, a cadela Laika; lamentavelmente também foi a primeira vítima fatal da Exploração Espacial, pois perdeu a vida pelo stress e o calor depois de cinco a sete horas do lançamento, devido a problemas técnicos. Esta nave não estava ainda pronta, mas os pesquisadores foram apressados pelo governo para comemorar a Revolução Russa no mês de novembro daquele ano. Tinha conhecimento também do Yuri Gagarin, primeiro “cosmonauta” russo, lançado em abril de 1961.

Com tudo na cabeça e as gravuras de meu Atlas, estava decidido: seria mais um candidato a astronauta. Para reforçar ainda mais as minhas inclinações profissionais, visitei em um final de semana o Planetário no Parque do Ibirapuera. Foi um tremendo show! Fiquei extasiado com o que vi. Antes de iniciar a sessão, pude dar uma olhada naquela engenhoca complicada e cheia de luzes que ficava no centro da sala e tinha uma placa onde estava gravado Carl Zeiss e Made in Germany. Ao iniciar, a sala ficou totalmente escura e a máquina central fazia um pequeno zumbido, projetando no teto da sala, que era curvo, um programa que mostrava o Sistema Solar, o cinturão de asteroides, os satélites, cometas e meteoros. Noutro bloco explicava como ocorriam os eclipses, tanto solares como lunares. Fiquei hipnotizado com a beleza de Saturno e seus anéis e o gigante Júpiter.

Por muitas noites naquele tempo acordava de madrugada, tentando ver pela janela algo semelhante ao que tinha assistido no Planetário. Uma perda de tempo. Fui informado que sem recursos de um telescópio nada poderia ser visto. Um grande programa para mostrar aos jovens estudantes um mundo maravilhoso que pode abrir as fronteiras do conhecimento e de carreiras. Hoje posso constatar que os meus caminhos não passaram pela astronomia, mas esse céu estrelado sobre nossas cabeças me magnetiza e me envolve de uma forma inarredável. Valioso patrimônio de São Paulo, tombado pelo Condephaat e Conpresp, o Planetário Professor Aristóteles Orsini fora fundado em janeiro de 1957.

O Professor Orsini (1910-1998), médico e professor emérito da USP foi seu primeiro diretor. Docente e pesquisador ímpar, tinha como foco de suas pesquisas e de palestras, a Medicina, Física, Biologia, Matemática e Astronomia. O Planetário é uma atração cultural para qualquer idade e exibe sessões aos sábados e domingos, às 15h e às 17h; o horário mais cedo é para o público infantil. Essas sessões duram cinquenta minutos e existem três programações diferenciadas em função da faixa etária a ser atendida. Existe uma programação didático-pedagógica por trás das exibições que atende plenamente a grupos especiais escolares que pode ter agendamentos exclusivos.

Após um período de reformas estruturais no prédio ocorreu uma renovação, upgrade, nos programas que incluem até imagens do Telescópio Hubble. Tal riqueza cultural pode ser acessada gratuitamente, basta retirar os ingressos 75 minutos antes do início de cada sessão. As informações podem sofrer alterações e podemos acessá-las pelo site www.prefeitura.sp.gov.br/astronomia. Uma grande pedida para toda a família. Aproveitem!

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