A chuva cai suave, como uma sublime garoa gelada na cidade feita de concreto duro e frio e pela superfície dos prédios de vidro da Avenida Paulista, como sempre firmando um dos apelidos da cidade, a Terra da Garoa.
Pensar nessa cidade como um mundo único é impossível, já que São Paulo por si só é uma belíssima colcha de retalhos étnico-culturais. Nesse ambiente único e precioso, sou apenas um espectador do mundo que me cerca.
A Terra da Garoa é abençoada por Deus e rondada pelo Diabo, aqui há o divino e o carnal, o máximo e o mínimo; viver nesse mundo é simplesmente magnífico.
Respirar o ar cinza, andar em cima do chão de concreto cinza, olhar para o azul acinzentado do céu e ver o olhar desses olhos tão estranhos e, parafraseando Machado, de ressaca das pessoas ao meu lado. Posso ver também tantas coisas por debaixo das fachadas das velhas casas e armazéns do centro e nas janelas dos apartamentos que vejo no minhocão quando passo, de carro, pela selva central.
Não sei como dizem que essa cidade é um completo inferno! Aqui encontramos o melhor e o pior do mundo. De um lado tenho uma infinita jazida de inspiração, o acesso à alma das pessoas e uma das mais belas cidades provocantes desse mundão e do outro convivo com a morte, essa bailarina vestida de cetim, com o crime dos poderosos amantes do dinheiro e dos viciados que sem esperança vão atrás do ópio sintético e da desigualdade, que é minha vizinha. Mesmo sabendo disso como poderia abrir mão de tudo que poderia ver e aprender com os livros de Mário de Andrade ou com a poesia das
buzinas dos carros.
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