"Alerta, alerta, vamos fazer revolução": pedaços da vida de um soldado constitucionalista

Meu pai, Alcides de Souza Leme, chegou a São Paulo em 1930 ou 31, com seus 18 anos completados e creio ter palmilhado os mesmos caminhos que eu percorreria muitos anos depois. Precisou lutar muito para sobreviver, carregou cestas para as madames nas feiras, foi lixeiro e talvez estivesse se encaminhando para uma vida medíocre, se não fosse a intervenção de um aparentado de meu avô, o maestro Antão, regente da banda da Força Pública:
– Filho do Joaquim Ignácio, lixeiro? De jeito nenhum! Vai entrar pra Força Pública e seguir carreira, 'já se viu’!

Meu pai, então, entrou (ou foi "entrado") para a Força Pública, onde aprendeu a profissão de telegrafista, mas não fez carreira, não era bem seu feitio…

Era 23 de maio de 1932. Ativistas políticos, estudantes, gente do povo, uma pequena multidão se concentra em frente à sede da "Liga Revolucionária" na Rua 24 de Maio, órgão ligado diretamente aos grupos apoiadores do governo de Getúlio Vargas, presidente da República após o golpe da revolução de 1930.

De repente, o "rompe e rasga" intenta invadir o comitê. Tiros, muitos tiros repelem a invasão. Correria, gente ferida agonizando, mortes, as mortes de Martins, Miragaia, Dráusio, Camargo. Alvarenga morre dias depois. MMDC. São Paulo mobiliza-se… O ambiente político está tenso…

Era 9 de julho de 1932. Meu pai está de serviço no quartel da Força Pública da Rua Conselheiro Crispiniano. A soldadesca recebe ordens de se aprontar com petrechos completos, mochila, mosquetões, munição, barraca, ferramentas, num total de 30 e tantos quilos… São informados que farão uma marcha de treinamento… Marcham em passo acelerado até o Brás, até a Estação do Norte. Embarcam em trens que aguardavam na gare. Outras unidades da Força Pública vão chegando…

Ninguém fora avisado, mas São Paulo estava começando uma ensandecida revolução contra o 'status dictatorialis' que havia dois anos imperava no Brasil…

Três meses na Mantiqueira, bloqueio do túnel, as matracas, o frio, as geadas, o canhoneio, os aviões vermelhinhos, a fome (meu pai dizia que chegavam a se alimentar com uma espécie de sopa de raízes, folhas e capim, ou alguma caça ou gado de sítios e fazendas, abatidos a tiros de mosquetão…) e a morte, a morte de companheiros de trincheira, por balaços, por ferimentos infectados, pela pneumonia.

A morte também feriu meu pai da maneira mais violenta possível: na trincheira ele recebeu um telegrama comunicando a morte de minha avó que não suportara saber que seu filho tinha sido enviado para um front de batalha. Morreu com um infarto fulminante.

O telegrama recebido meu pai colou na contracapa de um livro, a "Gramática Expositiva" de Eduardo Carlos Pereira, que ele levava em sua mochila (grande autodidata, estudou sozinho praticamente até seus últimos dias de vida!); até alguns anos atrás, essa gramática esteve comigo, mas, por fim, acabou por se desfazer, infelizmente, tantos anos passados…

No final dos embates, São Paulo estava exaurido, o Estado e a cidade. Meu pai deixa a Força Pública e entra para a polícia civil no cargo de telegrafista.

Os anos passam, casa-se em São Manoel no último dia do ano de 1938. Nasci em Barretos em 1940. Viemos para São Paulo em 1944, quando meu pai iniciou mais uma batalha, agora não só pela sua vida, mas pela de minha mãe e pela minha…

Em 1957, na comemoração dos 25 anos da Revolução Constitucionalista, com lágrimas nos olhos, assisti a meu pai desfilando no Anhangabaú com seus companheiros de trincheira, do túnel, de Cunha, do frio e da fome.

Segui aqueles senhores que marchavam, alguns orgulhosamente (“peito pra fora, barriga paá dentro, seu mocorongo!”); outros, já combalidos, cansados da vida e de viver, andavam apenas, enquanto acenavam fracamente para as pessoas que estavam mais interessadas em recolher as lâminas de papel metalizado que caiam do céu numa chuva de prata…

Na debandada daquele estranho exército de soldados brancaleônicos engravatados, de terno, chapéu e sapatos sociais e que, ao invés de mosquetões, portavam bandeirinhas do Brasil e de São Paulo, encontro meu
pai:
– E aí, pai! Como foi? Se emocionou?
– Emoção? Não! Não me emocionei… Só cansei…
– Cansou? Como… Cansou?
– É, cansei! Vim em passo marcial da 9 de Julho até quase a São João. Não fazia isso há 25 anos, esqueceu? Resolvi brincar um pouco de soldadinho… Acho que tenho direito…
– Claro, claro…

Em casa, comentou:
– Muita gente que foi homenageada hoje, com medalhas, citações, comendas, passou longe do fogo das armas. Alguns eram escoteiros na época da revolução e estão nas páginas dos jornais posando de heróis, e todos eles, com certeza, recebem uma complementação em seus salários por conta do Artigo 30 que premia ou deveria premiar aqueles que lutaram de verdade… Mas a vida é assim mesmo, qualquer dia desses o país entra nos eixos. Agora vamos dormir, amanhã eu trabalho e você tem o colégio… Vai, vai dormir.
– ‘Tô’ indo pai… ‘Bença’.
– Deus te abençoe. Dorme com Deus…

Meu pai morreu em 7 de julho de 1960, aos 48 anos, dois dias antes de se completar 28 anos daquela madrugada em que ele saiu do quartel para marchar em passo acelerado até a Estação do Norte, naquele 9 de Julho em que São Paulo pegou em armas.

Seus restos estão no Mausoléu do Ibirapuera? Não, não estão, mas deveriam estar.

Gente como meu pai e muitos outros serviram o Estado de São Paulo e a cidade com risco da própria vida. As famílias dos heróis não deveriam procurar o Estado para que lhes fossem prestadas homenagens… Acredito ser obrigação do Estado reconhecer o papel que esses homens e mulheres desempenharam na História e homenageá-los.

Em tempo: minha mãe, D. Zezé, veio a receber um aporte financeiro referente ao "Artigo 30" anos após a morte de meu pai. Atualmente, não sabemos a razão pela qual, não recebe mais…

Palavras de meu pai em 9 de Julho de 1957: “…Qualquer dia desses o país entra nos eixos…”.

Alcides de Souza Leme, um soldado constitucionalista – *19-03-1912
+07-07-1960 Requiescat in pacem. '…bença, pai…

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