Em agosto de 1999, quando saí da Mooca para morar na Rua Luis Góis, no bairro de
Mirandópolis, não imaginava que iria conhecer uma pessoa tão pitoresca na minha vida: Tony Kfouri.
Eu tenho um grande amigo, Jose Henrique Cioffi, que na época morava bem perto, na Rua Heliotropos, e me convidou certa vez para tomar uma cerveja num bar ali perto da Praça Santa Rita, ao lado da igreja do mesmo nome, dizendo:
– "Vem aqui Edu, é no numero 300 e pouco da Rua das Rosas"
Fui a pé e quando lá cheguei o Zé Henrique me apresentou o Tony. Um libanês de meia
estatura, dos seus 60 e poucos anos, muito forte, de pele clara, rosto redondo, um bigode bem aparado, cabelos claros, já mostrando alguns fiozinhos brancos (percebidos apenas quando estávamos próximos) e não muito gordo.
O sotaque não tinha como negar:
– "Olá muito prazer Tony. Tony Kfouri”
Com um sorriso tímido e com um aperto de mão que mais parecia uma morsa!
Confesso que a primeira impressão do bar não foi das melhores. Era escuro com um balcão frigorífico desativado, substituído por essas geladeiras novas verticais. Em cima do balcão uma cafeteira expressa inativa, papéis, contas pagas e a pagar, papéis de maços de cigarros que serviam para fazer contas, sacos para embrulhar o seu famoso frango assado feito aos sábados e domingos numa churrasqueira que tem uns 3 metros de comprimento. No canto do balcão um pequeno pedaço de mármore rosado e em cima dele era servido (e continua sendo) um mix. Mix foi o nome usado por mim e pelo Zé para batizar o famoso “rabo de galo” e deixá-lo mais charmoso. Sem falar é claro das boas rodadas de cerveja.
Os anos se passaram e continuei frequentando o bar do Tony até duas vezes por semana, com umas passadinhas ou no sábado ou no domingo. Fizemos varias extravagâncias gastronômicas por lá: assamos meia capivara que ganhei do meu cunhado, uma pescada que tinha mais ou menos quatro quilos, camarão no bafo, ostras que eu trazia de Cananéia, vaca atolada… E o Tony estava lá, sempre solícito, pronto para preparar e servir-nos até ás 22 horas. Ele costumava fechar cedo, no máximo ás 20 horas, mas quando estávamos por lá ele ficava até mais tarde.
Por ser uma pessoa simples com um bar pequeno, mas que o bairro todo conhece
pois está lá no mesmo local há mais de 30 anos o Tony me assustou quando eu vi estacionada na frente do seu bar, uma Mercedes Benz 89 320SL, eu acho, cor de grafite:
-"Uau Tony! É sua???”.
– “Sim, comprei hoje Edu". Disse ele todo orgulhoso!
Caramba! Como ele, com um bar tão simples, podia fazer um negócio desses? Faço um aparte aqui pra contar que o Tony tinha também na época um Monza Classic 89 automático e um Escort. Ambos velhos e com a pintura num estado de conservação sofrível, mas andando e permitindo a ele levar logo cedo seus filhos ao colégio e buscar o seu famoso pão sírio lá do Bras.
Eu não conheço sequer um único libanês no Brasil que não tenha se saído bem no mundo dos negócios. O Tony não fugiu a regra:
-"Eu comprei de um japonês que tinha ela parada "no garage". Paguei bem barato pra tirar e abrir espaço “no garage” dele. Ta com 25 mil quilômetros"
Fiquei com inveja dele. Ele até chegou a me oferecer o carro para que eu pudesse levar minha filha à igreja, para se casar, em 2007.
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Lá no bar do Tony eu conheci outras "personalidades" do mundo árabe: O Abdo, Abud, Simon, Rimon (não sei se é assim que se escreve), Michel (que também tinha uma Mercedes branca, Arnaldo Véspero, Robertinho Maluf, e vários outros. Lá eu ouvi inúmeras histórias de todos eles e sempre com sotaque característico sobre quase tudo além de eu mesmo contar coisas que sabia sobre as culturas libanesa e árabe.
Os assuntos eram os mais diversos, cultura, gastronomia, religião, política (eram as conversas mais calorosas)… Mas o engraçado era que não se falava em futebol.
Toda vez que o Tony começava a contar algo, complementando a informação dada por algum patrício, tinha sua assinatura:
– "Na realidade o que acontecia era que… Etc. etc. etc.". Tomando o devido cuidado para não ofender o patrício e contar o fato como realmente ocorreu.
É impressionante a cultura geral que ele tem. Aos sábados e domingos ele oferece em seu bar uma esfiha espetacular, sem falar no seu famoso frango assado, daqueles abertos num espeto duplo fazendo frente ao “Braseiro”, que fica na Rua Luis Góis, depois da Jabaquara.
Até hoje passo por lá, muito rapidamente agora, pois trabalho no Rio de segunda a sexta e o pouco tempo que tenho nos fins de semana fico com a minha família.
Quando o Tony me vê hoje solta logo um:
– "Grannnnnnnnnnde Edu”.
Depois me dá um abraço apertado e um beijo no rosto e pergunta:
-"Como está bamãe?".
Sempre disse que o bar do Tony é sinônimo de cultura, pois tudo o que ali foi discutido e contado mostra a realidade de um povo trabalhador e sofrido, que enfrentou dificuldades com a língua e até disputas religiosas de conterrâneos. Tony faz parte do bairro e é um personagem singular.
Se ler essa história Tony, quero que saiba que você é uma grande pessoa, que te admiro demais e lhe tenho um grande carinho e respeito… Além do orgulho imenso pela nossa amizade.
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