Chuva de louças

Voltamos ao ano de 1956. Estamos no bairro do Braz, mais exatamente na Rua Assumpção. Minha família acaba de se mudar da Penha para a Cidade. Os hábitos são diferentes, a língua é diferente, com muitas palavras esquisitas que eu tive que aprender a usar, e a falar cantarolando, e apesar de minha pouca idade posso sentir as diferenças. Eu estava acostumado a andar o dia inteiro descalço, pisando a terra, subindo em árvores, respirando um ar leve e fresco, mas aqui, o cheiro é de fumaça de ônibus e caminhão, as pessoas andam todas vestidas, os meninos usam alpargatas ou sapatos de sola de pneus, as ruas estão sempre cheias de gente. Não há lugar para brincar!!!<br>Pouco a pouco vou me entrosando com a turma da rua, e sinto um alvoroço em dizerem que está chegando o Natal, e que na noite do ano novo todos iriam: bater poste:???<br>Eu não sabia o que era aquilo, mas concordei imediatamente em acompanhar a turma.<br>O Natal chegou, e na véspera, a meia noite, tinha a missa do galo na igreja de San Vito. Ficava lotada e as turmas de todas as ruas faziam o pacto do natal. Ninguém se hostiliza, tudo era alegria. Dia 25, logo pela manhã todos os meninos e meninas desfilavam na rua com seus presentes recém ganhos, e quase sempre muitas bicicletas na calçada, carrinhos de rolimã, revolveres de espoleta, e sorrisos de alegria. Após o almoço ouvia-se gritos em quase todas as casas. – Cincuina!! Cartela!! Era o jogo de tombola, tão popular.<br>Mas o objetivo era falar da chegada do ano novo, e chegou, pontualmente as 23,45 h. a meninada já estava reunida na esquina da vila, e na mão de cada um via-se um martelo, um pedaço de cano, um objeto de ferro. Parecia que íamos para uma briga mortal. Mas não, felizmente a sirene da Gazeta tocou, anunciando a meia noite, e a turma correu para o primeiro poste, rodearam-no e começaram a bater incessantemente. Os postes eram de ferro, e soavam como se fossem sinos, o som era alto e duradouro e dava diversas tonalidades, era quase uma sinfonia.<br>Uma jarra de água passou zunindo sobre as nossas cabeças, e espatifou-se no meio da rua. O que se seguiu foi um festival de louças que eram atiradas de dentro das casas para a rua, e em poucos minutos o leito da rua estava forrado de cacos de louças, com os sons da travessa, xícaras, bules, pratos quebrando na rua de paralelepípedos. Eu não entendia nada. Mas uma menina me explicou: – É o dia do "spaca tutto vechio" …. ??? Uma outra esclareceu. – Hoje é o dia de jogar as coisas quebradas fora, para dar mais sorte no ano novo!<br>É, mais tarde vim a saber que os povos da baixa Itália, assim como os povos da Grécia tinham a superstição de que a cerâmica quebrada ofendia aos deuses, pois deixavam de ter beleza e perfeição.<br>Velhos tempos de um Braz que não mais existe, de uma colônia de imigrantes com seus filhos nascidos no Brasil, e de uma infância maravilhosa nesta cidade de São Paulo, ou San Paolo, ou Saint Paul, ou San Paulo de todas as raças, povos, credos, costumes e deliciosas comidas.<br>Feliz ano 2007 para todos. Paz, saúde e progresso