Peregrinação ao passado

A 2ª Guerra Mundial está terminada. O mundo chora seus mortos. As feridas estão expostas à visitação. São visões estarrecedoras. Mas o nosso Brasil esta preservado.
Aqui nossos problemas são muito mais de ordem doméstica do que internacional.
Nossa família agora com 10 pessoas enfrenta um surto de pneumonia tendo 5 delas todas mulheres e menores com o mal; uma em estado grave e desenganada pelos médicos.
Depois de tratadas e com alta, a volta ao lar não foi de toda festejada, pois a mais grave continuava na mesma. Os emplastos de fubá e aveia foram providenciais nas mãos da avó experiente. Mas havia outras receitas de iguais valores: orações, terços e promessas.
Todas atendidas e abreviadas pelos santos de devoção.
Com todos salvos e saudáveis, chegou a hora de pagar as promessas. Dia e hora combinados, saímos bem cedinho. Mãe e tia resolutas tinham pela frente 15 quilômetros de estrada de terra para caminharem a pé. Para mim que responsabilidade nenhuma tinha pelos meus 10 anos, acompanhava-as, porque em casa era um estorvo.
Finalmente, depois de horas, uma pequena capela no fundo de um vale nos acolheu, e o santo milagroso lá estava no seu pequeno altar. É negro.
Depois de 61 anos percorro o mesmo caminho a pé, agora com asfalto, e ao longo do percurso muitas moradias e bairros em formação. O prédio da estaçãozinha férrea lá esta desafiando o tempo, o bar da esquina e o armazém da pracinha também. Sem os trilhos do trem, o leito agora serve os automóveis. Fizemos o percurso em 3 horas. Depois de algumas idas e vindas para localizar a chave, entramos na pequenina capela bem asseada e clara com duas fileiras de bancos. No altar a imagem de um santo guerreiro que por ignorância minha não pude identificar. Momentaneamente desapontado, só recobrei a expectativa quando vi ao lado, no andor, a imagem de São Benedito. Não me lembrei de nada da vez passada.
Mas agora com a marca da mutilação do tempo, entendo o porquê das promessas e de uma vida salva através de emplastos e súplicas.
Nascer para a vida é um milagre. Viver 71 anos, significam muitos milagres. Cultivar sentimentos remotos é como achar o remédio perdido.
A peregrinação à capela de São Benedito continua tão fervorosa como a 100 anos atrás.