Muitos forasteiros e outros visitantes do bairro da Mooca diziam, nos anos sessenta, que estas áreas tinham um cheiro característico. Comentavam que atravessando as ruas principais do bairro, entrava pelas narinas um odor de açúcar vindo das redondezas, dos trilhos que dividiam a Mooca baixa do Alto da Mooca, misturando-se com o do café, provavelmente da torrefação e do refino da União.
Falavam do cheiro de fumo usado na fabricação de cigarros, que saía das altas chaminés da Souza Cruz, na Rua do Oratório. Outros dissertavam sobre o cheiro da Mooca, identificando-o como cheiro de fumaça, referenciando-se aos trens que passavam pela Rua dos Trilhos. Mas estavam enganados, era para mim "outro" cheiro.
Nos anos setenta, a observação era de que carros barulhentos, sons ruidosos das buzinas e sirenes, misturando-se aos cheiros dos pastéis de feira, perfumes baratos, desodorantes vencidos, mais o cheiro de gente, gente essa que se misturava aos já moradores, que por serem descendentes de imigrantes e misturados ao odor da gordura dos churros, outrora famosos, exalavam um cheiro característico, muito desagradável, (talvez digo tudo isso para representar o meu repúdio às drogas).
Escrevi este preâmbulo de forma figurativa, para revelar duas falhas no decorrer de minha existência e aproveito para citar o bairro da Mooca, porque foi lá que aprendi a viver e desfrutar de boas amizades que, felizmente ainda as cultivo, hoje sou aposentado e impedido de caminhar, por conta de um simples tombo quando trabalhava na indústria química do Grupo Votorantim. Não que isso tenha acabado comigo, mas deixou marcas profundas, que acompanham minha vida até hoje.
Na verdade, tomo a liberdade de aqui, neste espaço, fazer uma revelação que para muitos já é conhecida, mas não dessa maneira, digo "na grande rede"; aprendi a gostar de drogas no exercício de minhas atividades na indústria química. Fumei muitos "baseados" e cheirei muita cocaína, tornei-me um dependente químico e hoje sou uma pessoa reabilitada, como dizem, sou um adicto e a cada dia tenho uma vitória e faço em média duas palestras por semana em escolas e igrejas para ajudar, com minha história e experiência vivida, os jovens, para que de forma alguma tomem esse caminho.
Em uma de minhas internações conheci um "amigo", que de forma mágica, me desviou de outro caminho que trilhava e que não percebia e, por várias vezes, me perguntava porque sou tão machista, por que sou tão radical. E conhecendo esta pessoa, fui aos poucos percebendo que, na realidade, eu teria que mudar de lado; e graças a minha "racionalidade" saí do "armário", como dizem hoje, e assumi meu lado feminino. Entrei no maravilhoso mundo da bissexualidade. Hoje vivo felicíssimo ao lado de meu companheiro e livre de preconceitos, vou levando a vida.
No início me referi a duas falhas. A primeira foi das drogas e a segunda foi "ficar no armário". Mas isso já é passado, o que mais adoro no presente é poder lembrar e dizer: Ah! Que saudades do Grupo Escolar Eduardo Carlos Pereira, do bauru de carne do bar do Aníbal, esquina da Visconde com Itapira, do perfume que vinha da Fábrica de Chocolate Gardano, do cheiro da Mooca, quando estava ainda "escondido". Era a fragrância da saudade. Esta sim, a verdadeira marca olfativa da Mooca dos meus amores e dos meus odores.
Sinto esse odor e percebo que ele é da Mooca antiga… Dos anos 60… Do perfume Lancaster, que hoje se transformou em Chanel nº 05.
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