Fregueses do Empório

Morávamos na antiga Rua Manoel de Nóbrega, esquina com a então XV de Novembro, aqui no Brooklin, defronte ao Clube Banespa, onde meu pai tinha um Empório de Secos e Molhados, nas décadas de 50 e 60.

Naquele tempo, os fregueses faziam as compras, cujos lançamentos eram feitos na caderneta e o pagamento era mensal; nunca soubemos de alguém que deixasse de pagar.

Havia vários tipos de fregueses cujas recordações tenho em minha memória, juntamente com meu irmão e meu primo, Maudinho de Pongaí, que lá trabalhava. Eis alguns deles, que foram marcantes para nós:

CASAL DE MUDINHOS – Surdos-mudos de nascença. Se comunicavam por sinais, indicando o que queriam e através dos dedos diziam as quantidades. Depois íamos fazer as entregas na casa deles, tocávamos a campanhinha, ouvíamos o som da mesma e ficávamos intrigados; depois descobrimos que o som era para os filhos (4/5 aninhos) ouvirem. Na cozinha tinha uma lâmpada vermelha que ficava piscando para os pais verem e atenderem a porta caso as crianças não avisassem.

ADRIANO DO PARQUE – Levava uma lista enorme e depois íamos entregar e ele pegava um monte de notas para exibir e dizer que era rico; ficávamos olhando, esperando uma bela gorjeta… Mas só dava umas moedinhas.

VELHO DO VIRA-LATAS – Tinha um cão pastor alemão que avançava em nós. Tínhamos medo, mas fazíamos a entrega e sempre nos dava boa gorjeta. Mas entre nós o chamávamos, sem maldade, pelo nome citado.

DR.ANANIAS – Morava quase defronte ao empório e era o médico do bairro. Tínhamos o maior respeito pelo mesmo e lá gostávamos de fazer as entregas, pois tinha 3 filhas bonitas, quase das nossas idades. Ficávamos olhando-as, mas nunca nos "olharam".

DONA CATARINA – Ela e o marido eram austríacos. Casal já idoso, mas muito simpático. Sempre nos ofereciam um refresco, geralmente limonada ou doce de maçã.

ANTONIO PORTUGUÊS – Não gostávamos de ir lá. Vivia mal-humorado, ficava desconfiado, falando: Será que seu pai pesou certo, não pesou a menos, não? E não dava gorjeta. Como tinha uma horta, de vez em quando dava uma verdura para levar à minha mãe e só.

DONA ZEZÉ – Vivia sempre com cremes e pomadas sobre o rosto e uma toalha envolvendo os cabelos. E nunca soubemos o porquê dela cozinhar os ovos com leite (?). Mas era muito simpática e nos dava sempre gratificação.

DONA ZINAH – Não eram italianos, mas a família toda só "vivia na gritaria" e tinha dois cachorrinhos que ficavam só nos farejando… Nada de gorjetas, depois eu dou… E assim ficava.

DONA MARIA DA QUITANDA – Era japonesa. Minha mãe mandava comprar verduras e ela comprava mantimentos no Empório; depois, fazia o "acerto" compensatório com minha mãe.

NICOLAU BARBEIRO – Era o nosso barbeiro, cortava os cabelos de todos, inclusive de meu pai. Depois acertava no fim do mês, deduzindo os valores da conta do Empório. Nunca deu gorjeta. Mais tarde tornou-se um empresário de sucesso, dono da "Transporte Nicolau", que hoje não mais existe.

SR.WALDOMIRO – Pai do nosso amigo de infância, Juca, que levava a lista feita pela mãe e nos ajudava na entrega. Dona Edith, mãe, era uma senhora muito severa e todos a respeitavam. Sequer tínhamos coragem de abrir a boca quando lá íamos; até o Juca (filho) ficava calado. Gorjeta, depois o Wal (marido) dá.

E esses foram os fregueses que em nossas memórias ficaram e que hoje, com o advento dos supermercados, há muito deixaram de existir, e só nas eternas lembranças ficaram…

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