Em meu bairro havia um clube que nos deixou muitas saudades: o Clube de Regatas Nitro Química de São Miguel Paulista. Neste Clube, que na época era considerado um dos melhores de São Paulo, eram promovidos bailes durante todo o ano. Começava com o reveillon, cujo som da Orquestra Marabá misturava-se com o apito da fábrica e os estrondos dos fogos de artifícios.
Logo depois, no mês de fevereiro, vinham os bailes de carnaval e, entre confetes e serpentinas, os foliões rasgavam suas fantasias e liberavam suas mágoas com o canto das marchinhas "eu procurei de lanterna na mão…"
Em abril acontecia o Baile das Rosas e a mocinha apaixonada se vestia com rigor, se enfeitava de laços e cetim, para bailar com seu par; cada passo uma jura, uma promessa de amor. Em junho havia o baile dos namorados, no qual festejávamos também os santos juninos: Antonio, o casamenteiro, João, o santo foguista e Pedro, o guarda do céu.
Nestes bailes, além das valsas, boleros e sambas havia também a quadrilha, o arrasta-pé e folguedos. Lá fora a grande e alta fogueira esquentava a noite fria com labaredas gigantes, que pareciam pedir aos céus muita força e proteção para a gente do bairro humilde.
E quando vinha setembro, com suas cores e amores, lá vinha o “baile-emoção” – o baile da primavera – o baile da coroação da rainha escolhida por todos da comunidade, a mais bela moça, a mais elegante e bastante sedutora. Muitas valsas nesta noite, tantos boleros, canções…
E logo chegava novembro, o mês da proclamação, e havia então um baile com toda consagração, o Baile das Bandeiras; nele as moças e rapazes se vestiam com rigor pátrio e a decoração do baile seguia a tradição” auri-verde”, misto de esperança e riqueza varonil.
"Bandeira do Brasil, ninguém te manchará, teu povo varonil, isto não consentirá!!!"
Estou escrevendo sobre um tempo que não voltará jamais, mas que deixou marcas profundas e muita saudade. Como disse o poeta, "saudade que me fez morada e não quer se mudar".
Hoje nada mais resta do passado tão recente. O clube foi implodido, a Orquestra Marabá emudeceu para sempre e os bailes, ah!!
Os bailes ficaram apenas na lembrança, apenas no nunca mais!!!
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