Era abril de 1954 quando mudamos para o distante e desconhecido bairro do Caxingui. Meu pai acabara de ser sorteado com uma casa pelo IPESP e ele providenciou logo a troca de bairro para que pudéssemos deixar de pagar aluguel.
Aparentemente não havia muita vantagem, pois pagávamos Cr$ 1.500,00 na Vila Clementino, onde morávamos, e iríamos pagar Cr$ 2.921,30 mensalmente pela prestação da casa (até hoje tenho os recibos), mas era o nosso primeiro patrimônio e meu pai raciocinou – evidentemente com toda a razão – que valeria a pena o sacrifício, e vamos botar sacrifício nisso!
Na época meu pai trabalhava no Palácio dos Campos Elíseos, então sede do governo do Estado, e no aeroporto de Congonhas, no serviço de radiotelegrafia da VASP; minha mãe era dona de casa, e eu estudava no Colégio Santo Agostinho, no bairro do Paraíso. Os deslocamentos eram muito complicados, tanto para meu pai quanto para mim, já que não havia condução para o centro da cidade. A saída era caminhar até o Largo de Pinheiros para tomar o bonde, que ia até a Praça Ramos, já que não se podia esperar o único ônibus que fazia a linha bairro do Ferreira/Rua Butantã que, quando passava pelo bairro, já vinha lotado.
Mas, apesar dos problemas, o bairro era ótimo, havia, e ainda há, muito verde, matas, o bairro do Morumbi (acreditem) era uma mata fechada cortada por alamedas asfaltadas e iluminadas, um deserto verde de classe, muito "chic", o Pirajuçara era um rio limpo, onde se nadava e se pescava alguns cascudos com peneiras…
A mudança dos contemplados pelas casas do IPESP alavancou o progresso do bairro. De repente o contingente humano da região foi aumentando em cerca de três mil pessoas: funcionários públicos, jornalistas, radialistas, pessoal da TV (incipiente, mas tinha programas bem melhores do que hoje!).
Logo, os jovens se enturmaram, pois tínhamos praticamente a mesma idade e fizemos contato com o pessoalzinho do Caxingui – com algumas rusgas de início – e, de lá para cá, temos vivido na mesma casa, no mesmo endereço e vendo o bairro modificar-se dia a dia, as casas térreas dando lugar a espigões, os antigos mudando-se ou morrendo. Hoje tenho 70 anos e estou na fila de espera, mas espero que a fila demore a andar.
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