Estava eu, sentado no degrau da varanda da frente, sozinho em casa e p da vida por não poder sair para brincar enquanto minha mãe estivesse fora.
Contemplava o quintal e, vez por outra, atirava uma pedra ali e outra acolá com meu inseparável estilingue. Nunca fui muito bom com os brinquedos de criança, que, naquela época, basicamente eram a bolinha de gude, pipa, pião e taco. Porém, no estilingue destacava-me como um dos melhores atiradores da vila; somente o Batalha e o Toninho Alemão eram melhores que eu, mas também eram mais velhos.
Inquieto, pensava em algo para fazer, alguma traquinagem, como subir no último galho do abacateiro para provocar quem passava pela rua, ou coisa parecida. De repente, ao olhar para o final da rua, vi o Jaimão Português (aquele mesmo que foi caixa do Bradesco na estória do helicóptero) aproximando-se, com sua eterna companheira, com a rodinha de ferro que ele empurrava com um gancho de arame. Poucos moleques tinham tanta habilidade quanto a Jaime para fazer rolar aquele brinquedo.
Jaimão, filho da Dona Deolinda, era um moleque parrudo, daqueles que sempre foi o maior da turma, embora tivesse exatamente a minha idade. Ele já havia me dado alguns pegas, para manter sempre evidente que era mais forte e, por isso, deveria ser respeitado.
Enquanto o Portuga aproximava-se de minha casa, a idéia foi surgindo em minha cabeça – muito criativa quando o assunto era aprontar. Não tive dúvidas: quando ele passou na frente de meu portão, convidei-o para entrar para tomar uma limonada, já que minha mãe não estava e podíamos tomar quantos copos conseguíssemos.
Ele era muito guloso e, de imediato, o convite foi aceito. Entrou e encostou sua rodinha ao lado da parede de fora da cozinha e perguntou onde estava a limonada. Ficou meio puto quando informei que ainda deveríamos preparar a limonada, e, assim, logo fui dando as ordens (nisso eu também era bom): “Vá apanhar os limões enquanto eu pego a jarra e o açúcar”.
No canto do quintal, bem na cerca da tia Terezinha, havia um enorme pé de limão cravo, aquele limão grande e vermelho que mais parece uma mexerica do que propriamente um limão. O pé estava carregado de limões, porém, escondido entre suas folhas, uma grande e velha casa de marimbondos se escondia. Marimbondos daqueles pequenos e pretinhos.
Jaimão foi afoito para o pé de limão, já pensando em tomar uma jarra inteira de limonada, e nem olhou para trás. Armei meu infalível estilingue com uma bolinha de gude e, tão logo o Português apanhou o primeiro limão, eu mandei bala e não errei, pegando em cheio no meio da casa dos marimbondos.
Primeiro pude ver um leve tapa no rosto que o Jaime aplicou em si mesmo. Em seguida, bateu na cabeça, nas pernas e disparou correndo para o lado do quintal da tia Dária, com uma nuvem de marimbondo voando ao seu redor. Arrancou no peito a primeira cerca de arame farpado ainda no nosso quintal, passou pelo do vizinho, deixando parte de sua camisa enroscada na cerca e continuou correndo e se estapeando pelos terrenos baldios do outro lado da rua.
Eu, até aquele momento, estava morrendo de rir, quando vi o seu Nininho (um pai de santo, nosso vizinho, que ainda é vivo e pode confirmar esta estória) desesperado correndo em socorro ao Jaimão. Seu Nininho atirou o moleque no chão e os marimbondos foram embora. Eu tranquei-me bem escondido no quartinho dos fundos da minha casa, com medo do que poderia acontecer, e lá fiquei até minha mãe retornar.
Jaimão teve que ser levado para a farmácia do Seu Barreiros (a única do bairro) para ser tratado. Contaram-me que Seu Barreiros retirou ferrão por ferrão do corpo do Jaime, principalmente da cabeça, e deu no mesmo um banho de salmoura, além de várias injeções antialérgicas.
Para mim, sobrou uma das maiores surras das milhares que levei em minha infância de menino comportado. A dor da surra logo passou, o pior seria encarar a fúria daquele grandalhão.
Durante meses seguidos, meu caminho para a escola era alternado diariamente, e os oitocentos metros entre a escola e minha casa passaram a ter dois ou três quilômetros de percurso, que andava para fugir do possível encontro com ele.
Os meses se passaram e só fui encontrar o Jaime na festa junina da Sociedade dos Amigos do Bairro da Vila Corberi; era a maior e a única festa da comunidade. Ele não me agrediu e nem mesmo comentou o ocorrido. Voltamos a ser amigos e o somos até hoje, porém, pude perceber que, a partir daquele episódio, ele passou a me respeitar um pouco mais e a temer meu estilingue.
Naquele mesmo dia, convidei-o para ir lá em casa apanhar sua rodinha e gancho, e isto definitivamente selou nossa amizade.
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