Acordo com um ruído conhecido, mas raro nesta época. É a chuva. E não está fraca.
Como fôra anunciado na previsão do tempo, ela chegou mesmo, neste domingo, numa manhã fria e desolada.
O contraste não podia ser maior. Ontém, dia de Brasil X França,a manhã era linda.
Céu de brigadeiro, cortado por revoadas de pássaros, assustados pelas vibrações de bombas e berrantes cortando o ar. Nos vizinhos crianças gritavam e batiam bola, enquanto seus pais já comemoravam, dentro de casa, por antecipação.
Fazia algum calor. Enquanto esperava que nossso simples churrasco ficasse pronto, sentei-me no jardim, sorvendo goles de um ótimo vinho chileno e respirando o ar, que parecia purificado pelos raios de sol e o verde das folhas. Parecia um daqueles instantes onde o tempo pára, e tudo que se faz é sentir a vida. Pode-se então, pressentir a felicidade, presa no momento passageiro.
É a calmaria que precede a tempestade. Logo sente-se, a contragosto, a tensão, que crescerá, mais e mais, e não haverá volta. Leio numa pesquisa que 82% da população brasileira confia cegamente num hexacampeonato. Mas não vejo, no time, nada que possa dar essa absoluta certeza. Tantos desacertos, teimosias em continuar errando. Essa confiança só poderia ser o resultado de mais um sonho, depois de tantos outros falidos.
Mas o time, mesmo jogando mal, insistia em vencer. Como se todos os outros fôssem piores do que êle. Até que chegou a França, e aí, foi hora de despertar, mas tarde demais. Acordamos.
Na manhã fria e cinzenta, só se ouve a chuva. Ninguém se atreve a sair. Lá fora, as bandeiras derretem nas janelas, nos portões, nas sacadas, deixando um fluxo de lágrimas verde-amarelas pelo chão.
Após o sonho, a realidade. O Brasil está de ressaca.