Cachorro-quente já era

Nas décadas de 50/60, o paulistano que precisava matar a fome apelava para um cachorro-quente e um refrigerante. O cachorro-quente era montado a pedido do freguês. Um crocante pãozinho francês era aberto na hora para “agasalhar” uma bonita salsicha de carne de porco, bem vermelhinha e embutida em tripa natural. O cliente às vezes incrementava-o com um amarelo filete de mostarda.<br><br>Tenho vivas na memória três casas nas quais o cachorro-quente era a atração. A primeira era no Largo do Tesouro (próximo à Rua S. Bento) uma pequena porta, de no máximo uns três metros por outros tantos quatro ou cinco metros de fundo. Dividido ao meio, ficavam os comilões de um lado e do outro a área de preparo. Um pequeno fogão mantinha um caldeirão de água fervente para o cozimento diário de pelo menos 300 salsichas. Era o paraíso dos “office boys”.<br><br>Seguindo pela São Bento, em direção a Av. São João e descendo em direção ao Anhangabaú, não mais do que 50 metros abaixo, localizava-se uma loja de bom tamanho que a noite chamava a atenção por seu luminoso em gás neon. Havia dois porquinhos em posições contrárias, cada um puxando para seu lado uma fileira de luminosas salsichas vermelhas.<br><br>O verdadeiro templo do cachorro-quente era a saudosa “Salada Paulista” localizada na Av. Ipiranga, ao lado do cinema e do hotel Excelsior. A loja, muito ampla, ocupava uma área de pelo menos 10m a 15m de frente por outros tantos 20m ou 30m de fundo. No centro deste espaço um balcão em forma de “U” atendia dos dois lados a enorme freguesia que comia em pé. Na “testeira” do “U” ficava um balcão frigorífico com os embutidos e frios a serem servidos, no centro do balcão ficavam os fogões e chapas, operados pelos atendentes. As paredes laterais eram forradas por azulejos brancos mais ao alto. De cada um dos lados dois imensos painéis, pintados sobre azulejos (como era moda na época), retratavam panorâmicas de São Paulo. Havia um medalhão também pintado sobre azulejo que retratava o casal de donos, com feições de imigrantes portugueses, sempre atentos, vigiando seu estabelecimento. <br><br>As ofertas não eram muitas: cachorro-quente, salsichas no prato acompanhadas de uma saladinha de batatas, linguiça calabresa no pão ou no prato com as saladinhas de batatas, alguns sanduíches de queijos e frios. Eu sempre pedia um de patê. O atendente cortava metade de um embutido e passava no pão. A matéria prima era toda do Frigorífico Santo Amaro, cujos donos alemães cultivavam a ciência da salsicharia de sua terra natal.<br><br>A Salada Paulista abria por volta das 10h e avançava noite adentro oferecendo suas delícias. Os balconistas tomavam os pedidos e imediatamente partiam para montá-los, anotavam as despesas no mármore branco que revestia os balcões, fechavam as contas, recebiam o dinheiro e faziam o troco. Ao receber umas moedas de gorjeta, gritavam: “Caixinha!”. O grito, como eco, recebia dos colegas a resposta: “Obrigada!”.<br><br>Essa maravilha de lanche, rápido, barato e saboroso simplesmente desapareceu. Hoje a nomenclatura mudou para “Dog” ou “Hot dog” – uma salsicha embutida à máquina, de cor rosa pálida, e textura macia (possivelmente recheada de carne de frango), inserida num pão de leite mole, recheada com purê de batata, batata palha, milho, ervilha, vinagrete, mostarda, o famigerado ‘ketchup” e sei lá quantos outros ingredientes (isso é a evolução de um lançamento de sotaque americano ocorrido nos anos 60). <br><br>Naquela época, na Augusta, ao lado do “Cine Majestic”, frequentado pela juventude dourada de então, foi inaugurada uma loja que vendia hot dog. Era uma loja bem clara com pintura em branco e vermelho com decoração bem “clean”. A salsicha, meio pálida e meio insossa e de formato rigorosamente regular rolava numa moderna chapa rotativa e era servida no pão de leite. Vinha dentro de uma caixinha de papel e rodeada de batata palha. No balcão havia grandes frascos de mostarda e do tal de “ketchup”.<br><br>Admito, sou saudosista. Não consigo entender como a cultura popular paulistana trocou o cachorro-quente (preparado com sotaque alemão), foi primeiro americanizado e hoje, evoluindo através dos anos, tornou-se esta coisa grande, feia, bruta e sem gosto próprio, vendido em carrinhos de rua e lojas de hambúrguer.<br><br>Diante do quadro atual não canso de perguntar ao meu travesseiro porque os muitos modernos e esclarecidos empresários da gastronomia paulistana não cogitaram até hoje na hipótese de recriar a notável salada paulista.<br><br><br>E-mail: [email protected]