Caçada de Rãs

Noite fria de início de inverno. Reunidos em casa, na sala de estar, cuidando dos três netinhos, cujos pais em nossas mãos os deixaram e ao redor da lareira acesa e o fogo crepitante e com a lenha emanando um suave aroma de eucalipto e irradiando um calor reconfortante, ouço uma voz quase que uníssona, pedindo:

— Vô conta uma história para nós de quando você era criança.

Como dizer não? Comecei, após clamar pela memória:

Há muitos anos, nos idos tempos do fins da década de 50, morávamos lá no
Brooklin, defronte ao clube Banespa. Naquela época São Paulo era muito
diferente de hoje meus netinhos.

Havia poucos carros, muitas árvores e vastas áreas desabitadas e várzeas
margeando os rios e uma fauna que pouco a pouco foi se extinguindo e hoje
mais nada resta.

Certa ocasião, já anoitecendo, fomos em uma turminha de uns oito meninos,
caçar rãs que então abundavam nos charcos nas proximidades de onde é hoje a Av. Luiz Carlos Berrini, nas imediações do Shopping Morumbi, que vocês
conhecem.

Pois bem a caçada era feita com arpões que nós mesmos fabricávamos (com
ajuda de nossos pais).

Lá íamos nós: faroletes, bornais e botas de borrachas (exigências de nossas
mães). Todavia lá chegando, as tirávamos pois facilitava a locomoção no meio
da vegetação encharcada e meio submersa.

Olha uma lá… quem estava mais perto tinha o direito de fisgá-la, só que no
final tudo que pegávamos era dividido irmanadamente.

Risadas daqui, brincadeiras dali, tudo era divertimento.

Em dado momento, na afoiteza de arpoar uma rã enorme, o Vô, deu um pulo,
porém com o arpão para trás e o mesmo entrou no calcanhar direito,
provocando uma dor lancinante e o sangue brotando de maneira assustadora.

Todos ficaram assustados, principalmente o Vô, pois ao puxar o arpão o mesmo não saia, pois era tipo "flexa".

Desespero total, o que fazer?

Carregaram-me para o gramado e o arpão não saia. Aí, num lance de mera
intuição, meu amigo Paulo "Peito Duro" abriu o corte com os dois dedos
indicadores e o arpão saiu.

Acabou-se a caçada e para casa retornamos.

Minha mãe fez os curativos e enfaixou o calcanhar.

— Tiraram as botas, não é? Bem feito é para vocês aprenderem.

No dia seguinte o calcanhar amanheceu inchado e por bem, fomos à clínica do
médico que residia nas proximidades e era amigo de nossos pais. Ele se
assustou e perguntou quantas horas fazia do ocorrido?

Minha mãe respondeu: foi ontem à noite.

— Ainda bem! Há tempo!.

Aplicou uma vacina anti-tetânica e alertou que devíamos tomar mais cuidado,
pois poderia ter dado tétano e o Vô ir para o céu mais cedo.

Ficou a lição, meus netinhos, ouçam e obedeçam sempre o que os papais
recomendam.

Fim, meus amores.

— Conta outra…conta outra…

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