Brooklin Paulista – Os padres e as freiras

Os barbudos missionários e educadores italianos, do Pontifício Instituto das Missões Estrangeiras (PIME), com sede em Milão, chegaram ao Brooklin Paulista em 1948. Assumiram a Paróquia Sagrado Coração de Jesus, implantando inusitada e moderna metodologia de trabalho, centrada nos paroquianos em geral, mas, acima de tudo, na numerosa juventude da região. Surpreendente e grata revolução. Primeiro vieram os padres Attílio Garré, Luiz Gargioni e Carlos Acquani. Aos poucos, foram chegando Aristides Piróvano, Geremia Arosio,Angelo Pighin, Canzio Suardi, Angelo Gianola, Bruno Turato, Santo Cortese, Pedro Locati, Aldo Da Tófori, João Airaghi, Teodoro Negri, Vicente Mariani, os irmãos-leigos Carlos e Faustino e muitos outros, até o encerramento definitivo do longo e gratificante ciclo do PIME no bairro, com os padres Antonio Turra, Domingos Savino, Ernesto Arosio, Lino Pavaneto, Eugenio La Barbera e Sandro Schiatarella, em fins da década de 80. Poucos deles permaneciam em São Paulo. Partindo do Brooklin, casa-mãe do instituto no País, seguiam pelos mais remotos e enigmáticos caminhos, até alcançarem os inóspitos sertões do interior de São Paulo, Paraná e Santa Catarina. Porém, as misteriosas e subumanas profundezas do Brasil Central e os selvagens e traiçoeiros confins da Amazônia, até o Amapá, exerciam sobre eles espantosa e invulgar atração missionária. A vocação já lhes havia traçado o destino; a crença, impessoalidade e extrema abnegação eram outros valores de peso que levavam consigo. Vitimados pela fatalidade de doenças tropicais, muitos deles não mais fariam a viagem de volta. Com a chegada da primeira leva, padre Luiz encarregou-se dos jovens e adultos e o irrequieto padre Carlos, da garotada. De imediato, o entorno da igreja e imediações transformaram-se num agitado agrupamento de meninos, sugestivamente batizado por padre Carlos, de Meninópolis. No início dos anos 50, a Mitra Arquidiocesana vendeu ao PIME a Casa Paroquial e o terreno contíguo, na esquina da Rua Coronel Conrado Siqueira Campos, com a Avenida Morumbi. A seguir, a Prefeitura cedeu aos padres um velho galpão pré-fabricado, composto de algumas salas de aula. Nascia, assim, por exclusiva iniciativa de padre Carlos, o Colégio Meninópolis. Mas não foi só. Na ocasião, cinema só havia no centro da cidade ou nos bairros vizinhos ao Brooklin: os Cines Cruzeiro e Phenix, na Vila Mariana, os tradicionais São Francisco, Marajá e Cinemar em Santo Amaro, ou ainda na Vila Nova Conceição, os cines Villa Rica, Radar e Excelsior. Conscientes das deficiências do lugar, os padres inauguraram anos depois e encostado à pequena escola, o amplo e moderno Cine Meninópolis. Foi erguido no terreno em que anteriormente havia um precário barracão, que padre Carlos adaptara para cinema, carinhosamente chamado de Cineminha do Padre Carlos. Aos sábados e domingos à noite, abria para os adultos e, nas matinês de domingo uma multidão de meninos o invadia, logo após o catecismo. O tal cineminha contava com apenas um projetor para filmes de 16mm. Intermináveis e ruidosos intervalos interrompiam as sessões, para a troca de um rolo de fitas por outro. Desfilaram pela tela do inesquecível cineminha personalidades de proa da cinematografia universal. Foi quando centenas de moradores, quem sabe pela primeira vez, puderam assistir às curtas metragens do genial e arisco Charles Chaplin e da dupla Gordo e o Magro. O Ébrio, com Vicente Celestino e o dramalhão mexicano, O Direito de Nascer, bateram recordes de bilheteria. No entanto, a vibração chegava ao auge, com os policiais e faroestes norte-americanos, do apogeu do cinema branco-e-preto, com Ray Milland, James Cagney, Humphrey Bogard, Douglas Fairbanks Jr., Eward G.Robinson, Peter Lorre, Gary Cooper, Ronald Reagan, etc. e com as aventuras de Johonny Weissmuller, O Tarzan. Imperdíveis também foram as comédias estreladas por Aldo Fabrisi,Totó, Pipino di Filippo, Dany Kaye, Bob Hope e Bing Crosby. Conhecer e admirar a arte da lendária e melodramática Bette Davis virou estatus e motivo de vaidade para muita gente. Mas aquele acanhado galpão da primeira escola um dia foi demolido. Em seu lugar, os padres levantaram um moderno edifício, inaugurado em 24 de maio de 1959, para alojar o novo Colégio Meninópolis, reconhecido como um dos melhores estabelecimentos de ensino da zona sul da capital. Esses incansáveis missionários não desperdiçaram a oportunidade que Deus lhes deu, de se envolver com criaturas de idade e condições sociais as mais diversas. E a eles ninguém poderá negar a eterna gratidão por terem contribuído, em muito, com a fulminante onda de crescimento registrada na região.

Bem antes deles, o Brooklin Paulista contava com um outro estabelecimento de ensino exemplar. Quem dos mais velhos não se recorda das irmãs alemãs Maria Zotz, Walburga, Maurícia, Digna, Camilla, Winfrida, Bertilla, Cornélia Scheller! Pertenciam a uma instituição católica, fundada na Inglaterra, por Mary Ward e que aos poucos foi-se espalhando por toda a Europa. Perseguidas na Alemanha nazista, migraram para o Brasil, chegando em São Paulo em 1932. No bairro, passaram a atuar em 5 de julho de 1936, quando instalaram o modesto Colégio Beatíssima Maria Virgem, num velho casarão na Avenida Santo Amaro. Contavam inicialmente com apenas 10 alunos. Depois, transferiram-se para a esquina da Rua das Margaridas com a Avenida Morumbi, numa antiga e charmosa chácara, com salas na frente, capela e um impenetrável convento nos fundos. No silêncio das aulas, ouvia-se o canto dos pássaros e respirava-se o aroma dos frondosos jardins que a cercavam. Entender o que falavam era complicado. Um rebuscado português, com carregado sotaque germânico, foi contaminando a maioria dos alunos, sobretudo a gurizada. E a influência era tanta que, para surpresa e espanto geral, muitos começaram a se expressar da mesma forma quando, em casa, repetiam em voz alta as lições passadas em classe, ou ainda quando cantavam para os pais as canções que as freiras lhes tinham ensinado. Encontram-se até hoje no mesmo lugar, só que as instalações da saudosa escola não mais existem. Foram absorvidas pelo gigantesco e moderno edifício do atual Instituto de Educação Beatíssima Virgem Maria. Rígida disciplina e excelente qualidade de ensino foram o maior legado que deixaram a dezenas de gerações que passaram por lá. Por isso, o eterno reconhecimento do bairro, grato por tê-las até hoje consigo.

e-mail do autor: [email protected]