Nos anos 1950 a Vila Olímpia tinha seus pseudos cantores. Todos numa banca de jurados de televisão quando muito tiravam nota cinco. Quando muito nota seis.
Isso para ser bonzinho. Mas de qualquer forma a turma cantava mesmo sabendo que não passavam de meros berrantes aos goles de cerveja gelada. Até eu que tinha voz de taquara rachada, me punha a cantar, sem um pingo de vergonha.
O local onde se reuniam tais cantores era na cantina do Romeu. Sim, do Romeu Pelicciari, grande jogador do Palestra Itália, e da seleção brasileira da copa do mundo de 1938, na França. Sua cantina ficava na Rua Firmino Ladeira (Santa Justina). Rua essa que vinha da Avenida Santo Amaro até a rua Clodomiro Amazonas. As cantorias era as Sextas e Sábados à noite em que no dia seguinte não se trabalhava, e a Sbornia ia pela madrugada adentro. Em meio à tamanha mediocridade, tinham dois que se destacavam. Eram Arnaldo no violão e Crusch no Pandeiro.
Também não faziam outra coisa. Estavam todos os dias com os instrumentos a mão. Toda tarde quando chegavam do trabalho lá estavam eles ensaiando. Não faziam muito barulho, para não prejudicar a vizinhança. Mas tinha muita gente que gostava de estar lá para ouvir os dois bem de perto, mesmo sabendo que era um ensaio em que havia muitas paradas para uma concatenação de entrosamento. Os vizinhos do lado até pediam para que eles elevassem um pouco o tom das vozes, para ouvir melhor.
Ambos moravam em casas de madeira, uma ao lado da outra, pintada de verde claro, casas bem construídas em duas águas, que eles batizavam de chalés da dupla “famosa”.
Num sábado em que tudo era alegria e felicidade, céu azul, estrelado, lua cheia, aquele veranico do outono do mês de maio, noite típica de ficar com copo de cerveja bem gelada molhando goela a baixo. Nesse sábado a coisa estava quente, a cantina que não era muito grande exportava gente para fora. Mesas nas calçadas. Vizinhos que faziam o mesmo. Era um sábado que a noite seria uma criança, e a madrugada era invisível. A coisa ia de boa para melhor.
Eis que de repente surge um forasteiro, vindo não se sabe de onde que foi entrando sobre olhares curiosos. Era um negro alto, que vendo uma mesa à toa, já foi sentando sem saber se ali tinha gente ou não. Pediu uma cerveja e foi tomando na base do conta gota. E a cantoria correndo solta.
Quando ouve aquela parada para molhar a goela, afinal ninguém é de ferro. O crioulo que até então nem boa noite havia dado, educadamente pediu o violão emprestado a Arnaldo para dar uma dedilhada nas cordas que ele antes, deu uma afinada. Quando o negrão começou a tocar, copos saíram da boca e todos os que tinham bigodes mesmo com ele cheio de espuma da cerveja, exclamaram: Huuuuuuummmmmmmm. Que bárbaro… Toca ai Luar do sertão! Gritava um. Quero ouvir a Bachianinhas, de Villa Lobos, pedia outro, e o crioulo cujo nome já se sabia, Benedito, e numa intimidade rápida, chamado de Benê, foi mandando brasa.
Ao ver que todos já estavam com a garganta devidamente molhada, ele devolveu o violão a Arnaldo. Ouve sonoros protestos. Que nada meu! O violão hoje é só seu. Em vozes uníssonas. Para a tristeza do Arnaldo que era o dono e amava um violão. Foi uma noite inesquecível e comentada por todos os lugares por onde havia gente que testemunhou aquele sábado sui generis.
A cantina do Romeu fechou, e o bar onde o pessoal foi dar com os costados era o Deixa de Onda (Rua Nova Cidade 214) que já não era mais aquele botequim que só servia pinga para bebuns.
Estava um bote dixavado, balcão novo, a garagem já estava reservado a extensão do bar, onde mesas e cadeiras aumentavam o numero de assentos a mesa e ainda tinha lugar para uma churrasqueira e uma chapa para as Sardinhadas de Celestino Leiteiro. Sardinhadas tipo de Portugal. Aquelas que não grudam na chapa.
O novo endereço das cantorias estava bem mais próximo aos Chalés verde claro, dos instrumentistas Arnaldo e Crusch. Alguém os estimulou a se inscreverem no programa de calouros do Ari Barroso na TV Tupi, que ia ao ar aos domingos à noitinha. E lá foram eles, tentar uma boa nota, daquele ranheta compositor que via tudo o que de errado faziam os calouros, e metia o pau.
Naquele domingo um aparelho de televisão foi colocado na parte externa do bar, pois, antena "pé de galinha" estava bem na ponta do telhado.
Chegou à hora da apresentação e todos esfregavam as mãos de ansiedade. Quando eles foram chamados fizeram sua apresentação que para o público da Vila Olímpia tinha sido muito boa. Mas, Ari Barroso fez uma observação:
– Dessa dupla se salva somente o pandeirista.
Risos a dar com pau no bar.
As tardes e noites musicais eram o xodó dos habitantes da Vila Olímpia, que só se dispensava um pouco do bar Deixa de Onda quando apareciam os parques de diversão, ou então as quermesses da igreja do Divino Salvador.
O pessoal era louco para ganhar prendas, dando tiros de rolha, tentando acertar maços de cigarros, ou então jogando argolas nas garrafas numeradas com cada uma valendo um prêmio. Quando não, moças e rapazes fazendo o footing, na esperança de conseguir um bom namoro. Hoje em dia quando se conta essas passagens para os filhos e seus amiguinhos, ouve-se eles dizerem que eram tempos de babacas.
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