Morávamos nós em uma vila, que era conhecida como Escadão, pois ela tinha sessenta e dois degraus. Esta vila ficava no final da Rua Gama Cerqueira com a Rua Robertson, no bairro do Cambuci.
No escadão moravam muitas famílias estrangeiras (espanholas, italianas etc.), e como não poderia deixar de ser, havia muitas crianças, e quando nos juntávamos, não faltavam brincadeiras para nós. Existia muita criatividade. Nada estava pronto.
Quando chegavam as férias escolares era aquela alegria, pois tínhamos o dia inteiro para brincar na rua e no escadão. Jogávamos bola na rua. Empinávamos papagaios (raia, peixinho, barrilete, maranhão (atual pipa) e caputcheta, que era feita de jornal) no final do escadão, pois ali se formava uma grande corrente de ar. Jogávamos bolinhas de gude, pião, taco etc.
Umas das brincadeiras que era constante era rodar pneu. Pegávamos um pneu e saíamos a rodá-lo com as mãos. Íamos até o final do quarteirão e voltávamos. Até que um dia consegui um pneu de caminhão. Era muito grande para nós brincarmos, tivemos de rodá-lo em dois. Foi aí que tive a brilhante idéia de colocar o meu irmão Vanildo dentro do pneu e rodá-lo, pois ele era pequeno e miúdo, e se tornava engraçada a brincadeira.
Até que um dia tive outra idéia: soltar o pneu no escadão com o Vanildo dentro, e foi o que fiz. Aquele pneu desceu, pulando as escadas, até bater no muro que era no final do escadão. Ele saiu do pneu completamente tonto. Não conseguia parar em pé, e aquilo era engraçado para nós.
Tudo isso fizemos na nossa inocência, pois não conseguíamos enxergar o perigo. Foi Deus que o guardou, pois ele poderia ter sido jogado fora do pneu e a consequência poderia ter sido bem séria.
Hoje o Vanildo tem 47 anos, é casado, tem filhos, mora em Goiânia e é um executivo de uma grande empresa.
Tudo isso ocorreu por volta de 1965, o escadão existe até hoje, só não existem mais as brincadeiras e as inocências daquela época.
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