Naquele quarto eu não durmo mais…

Ano de 1960 – hotéis de viajantes. A maioria deles localizava-se sempre perto das estações de trem. Era uma construção térrea tipo casarão com janelas grandes e o pé direito alto. Muito bem ventilados eram os quartos, com aquele corredor comprido com quartos lado a lado. Não existia suíte, o banheiro era coletivo, no quarto tinha uma pia para a nossa higiene pessoal.

Em uma dessas viagens que fiz ao Vale do Paraíba fiquei hospedado num desse tipo de hotel. Como cheguei meio tarde, o único quarto que tinha ficava no fim do corredor. Cheguei, tomei banho e fui jantar (naquela época, a diária do hotel era completa, almoço e jantar).

Na calçada em frente do hotel ficava uma série de cadeiras para os viajantes sentarem. Fiquei conversando e lá pelas 10h30min fui dormir, já quase não tinha mais ninguém acordado.

Quando deitei, estava meio sonolento, senti que algo estranho tinha agarrado, mas minhas pernas; dei um pulo, acendi a luz, o interruptor não ficava na parede, era em uma perinha que ficava no fim do fio amarrada na cama; como não vi nada, abri a porta e saí correndo, só parando na recepção. O guarda da noite até se assustou, perguntou o que tinha acontecido, e eu contei e disse: “naquele quarto eu não durmo mais”. Ao invés de me tranquilizar, não, ele disse: “o senhor não é o primeiro que fala isso, que algo estranho tinha naquele quarto”. Aí disse a ele: “me acompanha até o quarto”. Sabe o que ele me disse? “Da metade para o fundo não vou nem amarrado”.

Acabei dormindo na recepção. Quando amanheceu, já estava claro, tomei banho, peguei minhas malas e segui viagem. Não sei o que aconteceu, só sei que nunca mais me hospedei naquele hotel. Será que era paúra (medo)?

Naquela época eu era jovem, vinte anos de idade. No interior as pessoas contavam muitos casos de arrepiar… Hoje, com os acontecimentos que a vida nos apresenta, a palavra medo saiu do meu dicionário.

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