Botequim do Hugo

Passando pela rua Pedroso Alvarenga, dei de cara com um bar que me levou a um passado que me deixou saudade. Jamais passou pela minha cabeça que aquele bar de parede amarela, era, 50 anos atrás, uma venda onde eu comprava doce. Entrei e falei com um jovem que fiquei sabendo era neto do fundador daquele estabelecimento, fundado em 1927. Hugo Cabral Junior. Fiquei sabendo também que sua mãe dona Francisca, ainda é viva e aos 82 anos a ser completado em março, mais precisamente dia 22. Ainda é uma mulher muito ativa, sendo ela quem faz a massa dos deliciosos pastéis que são servidos pelos seus filhos Emiliana e Hugo. E por falar nela, eis que surge ela. Francisca Peixoto Cabral, cabelos brancos, sorriso espontâneo, bem falante e foi aí que a história do botequim do Hugo foi desenrolado:
“Este bar foi inaugurado em 1927 pelo meu sogro Marcelino Cabral, seus filhos cresceram aqui neste bar, e com o pai foram trabalhando. Aqui era uma mercearia e por muitos anos foi. Era mercearia São José, depois Cabral. Sabe, todo mundo o chamava de Cabral e ele acabou adotando o nome de Cabral mesmo. Vendia arroz, feijão farinha, batata, carne seca e bacalhau. Era muito sortido. Tinha doces, aquelas paçocas úmidas e esfarelada, com amendoim. Mortadela da boa, todo mundo vinha comprar lanche aqui. Tinha pinga também. Na época que a pinga era boa. Em 1943 eu vim para São Paulo, conheci meu marido, Hugo Cabral que vinha a ser filho do seu Marcelino. Mas foi a 17 de maio de 1952 que viemos a nos casar. Aí, veio os filhos. Hugo Cabral Junior e nove anos depois nasceu Emiliana, que esta com seus 34 anos.”
Dona Francisca se lembra bem do velho Itaim. A rua Pedroso Alvarenga, ainda de terra depois calçada com casas geminadas com terrenos enormes, 50 metros de fundura, onde ainda se localiza o bar, o terreno esta intacto na sua metragem original, embora tenha edifícios a sua volta. Dona Francisca fala do empório Zangari, da Casa Pais, do bazar São Benedito, tinha aqueles Turcos que vendiam fazenda, Seu Moises na Joaquim Floriano com João Cachoeira. Seu Abrão Dib na rua da Ponte, esquina com a avenida Imperial. Tinha a farmácia do seu Brandão, o doutor Odilon que era o médico da família. Tinha também o doutor Pires, o consultório dele era na rua Iguatemi. Impressionou-me
muito sua memória. Agora, quando foi alertada para se lembrar do Rink de patinação. Veio a exclamação: Lógico, que me lembro! Eu patinava lá.
– Confesso que depois de depois de 56 anos que me mudei do Itaim e mais outros tantos morando, ela é primeira que conheci patinando no Rink do Itaim. Dona Francisca gosta de falar. E as lembranças brotam nessa linda senhora de sorriso permanente.
“O bairro do Itaim era de gente pobre, mas bastante unida. Minha cunhada comprou a casa dela aqui na rua Doutor Leopoldo. As tardes de domingo as famílias ficavam com cadeiras na calçada, conversava–se a tarde toda até o anoitecer. As crianças podiam brincar na rua sem medo de ser atropelados. Tinha a feira que era na rua Joaquim Floriano, depois veio aqui na nossa rua. Era muito bom porque o meu marido e meu sogro vendiam muito lanche para eles. Depois eles começaram a vender arroz e feijão, nos prejudicou bastante nas vendas. Eles vendiam mais barato, pois não pagavam imposto. Aí veio os supermercados. A coisa ficou ruim. Ah… tinha uma escola de alemães, o Hugo estudou lá, estava aprendendo desenho. Mas, fechou por causa da guerra. Tudo que tinha nomes de alemães, italianos e japoneses, terminava ou mudava de nome. Foi uma perseguição muito grande contra eles. Ah. Não posso esquecer da dona Dulce Borges Barreiros. Ela era a dona do cine Itaim, aquele purgueiro que ficava na esquina da rua Tapera. Depois ela construiu o cine Star, mais moderno. Hoje é o cine Lumiere. Ela foi vereadora. Era a vereadora do bairro.“
– A senhora se lembra dos chalés do jogo do bicho que tinha na rua Joaquim Floriano?
“Sim, lembro. O Hugo jogava sempre. Jogava também nos cavalos. Eu costurava. Quando estava no interior tinha mais serviço que aqui. Quando casei morava com minha sogra e costurava pra fora. Depois que fiquei viúva eduquei meus filhos costurando. Sou uma mulher feliz, estou aqui com meus filhos e todos esses amigos que você vê aí sentados nas mesas. É reconfortante saber que eles gostam de mim. Fazem parte da minha família.”

Se vocês vierem ao botequim do Hugo, não sabem se estão entrando num botequim ou numa casa de antiguidades. Tem de tudo o que se possa imaginar de coisas antigas pelas paredes ou prateleiras. Sua fachada externa não dá a dimensão de ser um bar em atividade, estando com portas arriadas. É um prédio que se mostra velho, por conservar seu estado original. Cor amarelada, um portão ao lado, mostrando um fundo onde se vê árvores e plantas. Enfim, um bar diferente. Do jeitinho de antigamente, como gostamos de dizer. Mas quando as portas se abrem é de babar ao ver quantas coisas do passado mostra aquele recanto de saudade de um Itaim de 50 anos atrás. Suas mesas sempre cheias de gente de cabelos grisalhos, nas tardes noites, dos dias de semana se misturando com os jovens que deixam o trabalho e entram para curtir um bom papo e comer o pastel que a matriarca dona Francisca faz. E só deixa de fazer momentaneamente quando vai à igreja de Santa Teresa de Jesus para cumprir sua obrigação religiosa. Ela, que é da irmandade da igreja. Pensam vocês que só os habitues quem vão lá? Vai muita gente nova. Quem vai pela primeira vez, leva outro logo em seguida. Na certa dizem: venham ver um boteco de outro planeta.

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