Bom, muito bom!

Muito bom ter nascido no início dos anos cinquenta, muito bom ter sido testemunha do surgimento de movimentos que mudaram a trajetória do mundo. Muito bom ter vivido intensamente os anos 60 e 70, décadas estas, talvez, as mais férteis da humanidade, em que praticamente aconteceu quase tudo na moda, nas artes, no comportamento, na política, na ciência etc.

Muito bom ter sentido as mudanças de costumes, a partir da contracultura, do início das liberdades que nasceram por imposição dos jovens, que aos poucos foram introduzindo um jeito novo de "entender" o mundo e pelas mãos da própria juventude, abriram-se as portas para as transformações mais importantes da humanidade.

Muito bom ter acompanhado essas revoluções sócio-culturais, com o olhar de jovem também e perceber o tamanho da importância dos jovens naqueles momentos, visto que a "alienação" das classes dominantes motivaram a aceleração de tais mudanças. Ter percebido que tudo isso ocorreu de "dentro para fora".

Muito bom ter visto os primórdios da formação de várias identidades (entre os jovens), o que hoje em dia chamamos de "tribos". Eu, por exemplo, era da tribo dos que trabalhavam, (precisava, mas não gostava) tive dezenas de empregos, estudava também (no caso queria dizer "ir na escola") cabulava as aulas (no caso "fingir que ia na escola"), namorava, ia aos bailinhos nos finais de semana, comia “bracciola” e “porpeta” de domingo, alíás, era muito muito bom!

Muito bom ouvir Elvis, Beatles, Credence, Beach Boys, Nat King Cole, Frank Sinatra, Four Seasons, Birds, Roy Orbinson, Hollies, Rita Pavone, Gianni Morandi, Pepinno, Nicola di Bari, Pepino Gagliardi, Modugno, Gigliola, Donnagio, Bongusto, Paoli, Roberto, Erasmo, etc.

Muito bom ter nascido "Paulistano"
Muito bom ser do "Brás"
Muito bom ser "oriundi"

Muito bom ter aprendido a ler e escrever no "Romão Puiggari", ter sido aluno no "Eduardo Carlos Pereira", na Trinta de Outubro, no Carvalho de Mendonça, no Luciano Maia.

Muito bom ter conhecido a maioria dos meus amigos no Brás, vivido grandes "aventuras", grandes "histórias", grandes "amizades", e grandes "saudades".

Muito bom, ter comido a pizza do Castelões, do Luiz, do Avenida Chic, o macarrão da Adega do Bráz, do Marinheiro, o Capão do Balila, a Sfogliatelle, o Tarallo, a Guimirella, a Pizza de Rua etc.

Muito bom ter dado meu primeiro beijo no cine Piratininga. Muito bom ter tido "Meu Primeiro Amor" no Brás.

Muito bom ter a oportunidade de aos domingos, após o namoro, voltar para casa "cantarolando" “Io que non vivo senza te”.

Muito bom brincar no Parque Dom Pedro, ir ao Parque Xangai, nas Matinês dos cinemas do Brás, jogar no APEA, no Amor e Glória, no Imprensa, no River, sentir o calor humano, as emoções de viver num pedacinho de São Paulo, tão importante, várias vezes citado como o mais famoso de São Paulo e, principalmente, dizer que foi Muito bom, que "Deus" me deu a oportunidade de ter podido conviver, e ter aprendido muito com meu querido pai, um grande e legítimo “brasense”.

Muito, bom, muito bom mesmo!

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