Bicho preguiça

Quando penso na cidade me vem à cabeça o centro, onde eu ia mensalmente com meu pai. São muitas lembranças penduradas na sua mão guiadora e nas coisas que me ensinava. De momento estou lembrando do parque da Estação da Luz. Passávamos por dentro dele para chegar à loja de tecidos onde ele trabalhava (Tecelândia), na Rua Ribeiro de Lima. A sensação era ver o bicho preguiça nas árvores do parque. Impagável a imagem de pai e filha espichando os pescoços para espiar.
Uns meses antes de meu pai falecer pude levá-lo a uma exposição do Maurício de Souza na Pinacoteca – pinturas com seus personagens em telas famosas – e aproveitamos para entrar no Parque. Meu pai adorou, inclusive a exposição dizendo que não tinha mais vontade de sair dali.
Há alguns meses deixei a capital para morar numa cidade bem próxima, Itatiba, onde posso apreciar a natureza e espichar novamente meu pescoço para me encantar com pássaros, sagüis e a lembrança ainda mais profunda e alegre desse meu pai metade menino, metade passarinho, mesmo depois de velhinho, que me mostrou a vida com simplicidade e sensibilidade.

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