Bela Vista/Bixiga/Bela Vista

Talvez não tenha eu a maestria da narrativa que tanto desejo, para descortinar na memória de quem as lê as doces lembranças de um passado já distante, das ruas e lugares do bairro de minhas origens, das pessoas e dos momentos vividos com elas, dos meus tempos de menino.

Quisera ter a veia dramatúrgica como as veias de alguns nossos conhecidos narradores (Mário Lopomo, Pedro Boscato, Adolpho Adduci, Etel Buss, Pedro Nastri, Erta Tamberg, Luiz S. Saidenberg, dentre os muitos bons narradores deste site), que, com a sensibilidade de suas lembranças, nos transportam em uma deliciosa viajem rumo ao passado, de tempos memoráveis e inesquecíveis.

O bairro da Bela Vista (Bixiga, para os íntimos) cerca-se de muitas áreas pitorescas, como ruas, travessas, pequenas praças, pessoas que chegaram recentemente, outras que se foram para outras localidades (como eu, que estou na Bahia) e as que permaneceram e viveram as mudanças e transformações que o bairro sofreu, tudo em nome do progresso (sempre o famigerado progresso).

Aonde foi parar a "quadra do Bôca"? O que fizeram com a bucólica e tranquila Rua São Domingos? Dilaceraram a Rua João Passalácqua, destroçaram a Conselheiro Ramalho, Major Diogo e evaporaram a Rua Jaceguai.

Progresso, "minhocão", Praça Roosevelt (cadê a feira de sábado?), TV Excelsior, canal 9 (o Saidenberg já comentou). Mas chorar o leite derramado não vai encher o úbere da vaca novamente. É esperar pelo dia seguinte.

Nos meus tempos de menino, lá na Rua Santo Antonio, minha rotina com a molecada era, depois do colégio, as brincadeiras com carrinhos de rolimãs, que fazíamos (eu, Nelsinho Schiolla, Sidnei, Roberto Amaral, filho do seu João Amaral da oficina mecânica) e íamos para as Rua Rocha, Sílvia e até o túnel da 9 de Julho, com os nossos "bólidos", fazer um "racha" daqueles.

Vez por outra, um futsal na quadra do Bôca, "mãe da rua" próximo ao largo das "cinco" esquinas, cachuleta, pula-sela, folguedos que a infância de hoje desconhece e que aos poucos cai no esquecimento da garotada que está mais "plugada" nas internet's da vida, vislumbrando um ou outro "game/sangrento" do tipo "street fighter".

A televisão de meu tempo infanto-juvenil (uma Semp, 21 polegadas a válvulas – demorava "séculos" para esquentar), oferecia poucas atrações infantis (Zás-Trás, Pim-Pam-Pum (Estrela), Pullman Jr), o restante era novelas, noticiários e alguns programas de variedades.

Vicente Sesso, escritor consagrado, bixiguense autêntico, filho de dona Mena e do "Tenente", vez por outra nos levava para a TV Record, onde participávamos do "Clube do 7". Marcos Paulo começou sua carreira fazendo propaganda e pequenos especiais por lá, até estourar como ator de novelas, e agora, diretor de núcleo da Globo.

Uma fixação minha era esperar a passagem de um ilustre vizinho de nosso bairro que, imponentemente, se dirigia a sua suntuosa mansão na Avenida Paulista, a bordo de um reluzente Cadillac Fleetwood com placa de licenciamento de nº 1. Isso mesmo. O velho Francesco Matarazzo, filho mais novo do finado conde, que administrou o conglomerado das indústrias da família até quando pode, passando a "bola" para Maria Pia, que "apagou" as luzes da massa concordatária. Eu "babava" nos carros do também conde. Era um séquito de Cadillac's, com placas numeradas de um a dez, que mostrava a importância do proprietário.

Também, não era pra menos. Quando São Paulo ainda era uma província em franca ascensão (isso lá pelo início do século passado), o velho conde (pai de Francesco) conseguiu, numa "quebra de braços" com outro industrial da época, o direito de posse das exclusivas placas de licenciamento, que eram fornecidas pela prefeitura e a um preço bastante alto.

O Bixiga foi palco e testemunhas de muitos fatos e acontecimentos que marcaram a sua trajetória. Esportistas, políticos, artistas das mais variadas áreas. Dizem, não sei, que Johnny Mathis, quando aqui esteve pela primeira vez, e depois de se apresentar nos palcos da extinta TV Excelsior, em programa que teve a participação de Agostinho dos Santos, tomou um cafezinho com ele na padaria do seu Manoel (Santo Antonio x Delegado Everton – a descidinha que vai para a 9 de Julho).

Wilson Miranda, quando gravou a versão cantada de "Diamante Cor-de-Rosa!”, de Roberto Carlos, vez por outra aparecia por lá, e pela Rua Luiz Barreto, passando antes no bar do Benito, que ficava ao lado da oficina do Negão dos "Skodas".

O próprio Roberto Carlos não ficava atrás não. Seu LTD Vermelho cortava a Santo Antonio, vindo da 13 de Maio, onde morava sua primeira esposa, Eunice Rossi (a Nice). Era tempo de namoro às escondidas.

Antonio Marcos, Elis Regina, Germano Matias, Adoniran Barbosa (esse nem precisa comentar, era prata da casa).

Por fim, as saudades se completam com a ausência do bonde de nº 5 – Bela Vista, que fazia o circuito centro/bairro/centro, e que eu muitas vezes "choquei".

Dos vivos e os não mais, as minhas saudades: Jabra Chaebo, Seu Pedro da fábrica de espelhos, Álvaro da farmácia, Pernambuco da banca de jornais, Delmar (o Marzinho dos ternos e gravatas e da máquina fotográfica "Kapsa"), Agostinho Frazão (do bar), Tito, Jamil, Belém, seu Benjamim, dona Bernardete, seu Alfredo da mercearia no inicio da 13 de Maio, Egydio da barbearia (vizinho de seu Alfredo), dona Marina (paraplégica que tirava seu sustento passando roupas – e que perfeição), Neuza, professora de piano, Luiz Antonio (se fez pelos seus méritos e foi conhecer o mundo), e tantos outros.

A esses e tantos outros que não declinei aqui, mas que, com toda a certeza, estão reservados em algum lugar aqui dentro, a minha mais singela homenagem (póstuma ou não) e a garantia de que minhas saudades são o combustível de minhas memórias.

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