Avenida Danças

Um dia, 1966, um amigo me convidou para ir ao Chuá Danças, era por ali no final da avenida Ipiranga, não me recordo muito bem a rua. Depois de umas idas, um amigo me disse que o Avenida Danças, era bem melhor. Fui lá e pela primeira vez paguei para dançar. Coisa inédita para mim. A gente quando entrava recebia um cartão que era picotado.
Após a gente dar uma parada, a dançarina pegava o cartão e dava para o funcionário picotar o correspondente aos minutos que tínhamos dançado. 10 minutos de danças ela mandava dar 10 picotadas. Era preciso prestar atenção porque o cara sempre dava umas duas ou três a mais. Mas valia a pena porque tinha muita mulher bonita e gostosa.
Sandra era a minha preferida. Uma moça alta rosto lindo, com apenas 18 anos de idade. Dançando sempre boleros, que eram aquele velho arroz com feijão. Dois pra cá, dois pra lá e, eu especulando a menina.
– Seu pai sabe que você vem aqui dançar?
-Sabe nada. Deus me livre, ele me mata se souber!
– E o que você fala chegando em casa de madrugada. Pois já estamos à meia noite.
– Ah. Ele pensa que estou trabalhando. Falei que sou enfermeira na Santa Casa, e então chego em casa pela manhã, 7h30. Dou uma parte do dinheiro que ganho aqui, e ele fica todo contente.
O baile terminava às quatro de lá matina, para ganhar mais, Sandra ia com algum dos pretendentes a um hotel mercadejar seu corpo e ganhar mais 200 cruzeiros, além da comissão que nós os trouxas pagávamos no guichê do Avenida.
Num determinado mês ela não pode dar uma parte do dinheiro para seu pai. Depois de sair do hotel, (naquela época não tinha motel) com seu parceiro de pagamento, foi inquirida por um cafetão que estava exigindo o pagamento da taxa de proteção. Quando ela disse que não ia pagar porque nunca falou com ele a esse respeito, levou umas porradas na cara e ele enfiou a mão em seu sutiã, pegou todo o dinheiro, e picou a mula.
Quem ficou sabendo do caso foi um grande fã de Sandra. O Capuletta. Capuletta era meu “primo” de araque. Nós nos tratávamos assim, sempre imitando turco "Brimo". Ele era outro que dançava muito com ela.
Capuletta, que era amigo de dois “gansos” (dedo duro da polícia), contou o caso para eles, pedindo providências. Um dos gansos disse para policiais do Batalhão Tobias de Aguiar (Rota). Ficou ele encarregado de avisar quando o cafetão estivesse por lá. Esse cafetão tinha uma mesa cativa, tomava uísque de graça e ninguém sabia o porquê.
Numa sexta feira, dia que a casa fervia. O café estava em sua mesa tranqüilo a espera do termino do baile para pegar a sua parte na famosa taxa de proteção.
Capuletta ligou para o batalhão e avisou. Olha, o esperto tá por aqui. A turma foi na base do pesado. O primeiro que entrou já quis saber que era o café. Depois entraram os demais. Um bando de policiais. Várias viaturas. O chefe da Rota subiu no palco, pegou o microfone da mão do crooner. Mandou parar a orquestra e disse:
– Senhoras e senhores. O baile acabou. Chegou à rota! Todo mundo encostado na parede e com as mãos para cima.
Quem estava armado tratou de jogar a arma por debaixo da mesa. Mafra se recusou a se encostar na parede. Quando ia levar um tapa na cara mostrou a carteira de funcionário do Avenida Danças (picotador). Quando todos estavam em volta do salão que era grande e quase não tinha lugar para todos, a limpeza começou a ser feita. Só se via policial agachado por baixo das mesas recolhendo armas. Facas e revólveres tinham de monte. Sem contar o tóxico (maconha) que era pego nos bolsos do povo. Quando os policiais estavam de saída, um deles chegou até o café pegou-o pelo colarinho e disse: Vem cá filho da puta. Você foi o chamariz de nossa chegada. Vamos bater um papo. Entra na viatura. Só ele foi preso. Nem mesmo os que tinham maconha nos bolsos entraram em cana. Fiquei sabendo que o café tomou um puta pau, que nunca mais importunou mulher alguma na boca do lixo.
Em outra ocasião também numa sexta feira, estava eu dançando com uma dona de babar. Pensei: é hoje que eu ralo a coisa. Depois de arrastar o pé por alguns minutos, fomos tomar um drink. Ela não tomava bebida alcoólica por determinação da casa, por ser dançarina. Eu que sempre tomava guaraná, para dar uma de bacana pedi uma dose de uísque. Do mais barato é lógico (Drurys), estava sempre duro. E o papo rolou firme. Apontamento marcado para sábado de manhã. A hora disponível dela. Fui embora, para não depender do “navio negreiro” o último ônibus da jornada. Aquele que recolhia os motoristas, cobradores e boêmios.
Quando fui pagar o meu cartão estava dobrado. Quando isso acontecia marcado 120, significava que você tinha estourado o cartão e estava no segundo. Como eu controlava os minutos para não gastar muito, reclamei.
– Xará eu dancei 25 minutos e tomei um drink, porque tudo isso?
O cara do guichê foi firme: E o tempo que você ficou sentado batendo papo com a piranha, não conta?
– Porra, você tá me cobrando os minutos que estávamos tomando o drink?
– É lógico, porra! Você tirou ela do trabalho. Estando contigo, ela deixou de ganhar com outro.
O negócio é que eu não tinha dinheiro para pagar. Tive que deixar o relógio. Um Omega folheado a ouro que era do meu pai, como caução.
Dali para frente era só uma dançadinha de leve. Drinks nunca mais.

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